
[TEXTO e FOTOS Murilo Basso e Débora Gallas]
É inevitável, mas ver Cat Power tímida e retraída no canto do palco é uma experiência estranha. A postura da cantora também traz consigo uma sensação incômoda. O público lota o local e o silêncio impera. Alheia a tudo isso, Cat continua ali, quase imóvel – vez ou outra arrisca uns passinhos e busca interagir. De qualquer forma, ela parece estar feliz.
“Don’t Explain” abre a apresentação recheada de gestos e sorrisos tímidos no Bar Opinião, em Porto Alegre, na noite de quinta-feira (20). E começa a dar forma ao mundinho particular da cantora. “Dreams” e “Woman Left Lonely” vêm na sequência, mas o marasmo ainda não foi rompido. O esforço de Chan para tornar a performance intimista torna tudo artificial demais. E preguiçoso demais.

O primeiro bom momento é em “Silver Stallion”, tão delicada que é capaz de “caminhar” com os murmúrios da plateia. Os vocais sussurrados, o estilo minimalista e as guitarras esparsas fazem você sorrir pela primeira vez. Até acordamos e voltarmos a realidade: sono. A apresentação se arrasta pelas próximas cinco ou seis canções e com exceção de “Fortunate Son” (Cat sobe o tom de sua voz levemente nas melodias, conforme elas evoluem, construindo um dos seus melhores momentos no palco) o “destaque” é a versão desnecessária de “Metal Heart” – um ótimo exemplo sobre como exageros conseguem destruir uma boa canção.
Talvez seja algo proposital. Chan te faz querer dormir, para então poder te fazer sonhar. “The Greatest” surge transpirando charme e elegância – e aqui você percebe o quão contraditório é o fato de que Cat precisou parar de beber, para fazer música para bêbados. Sejam sobre amores, desamores ou álcool. Ou sobre os três. O fato é que quando não se perde em seu mundo (aliás, mundinho estranho esse não?) a cantora acerta em cheio, proporcionando momentos bacanas. Como ver pessoas felizes cantando “When they put me six feet underground / Will the big bad beautiful you be around” ou a densa versão de “Blue”, de Joni Mitchell.
Mas é pouco. Fica aquela sensação de que algo faltou. E o que falta a Cat Power são surpresas. As canções vêm uma após a outra seguindo uma espécie de roteiro pré-estabelecido. Esta burocracia faz com que, no geral, tudo soe apático. E a apresentação canse. Tanto faz assisti-la em Porto Alegre, Buenos Aires ou São Paulo. O show e as sensações serão sempre as mesmas. E se você perdeu esta turnê, fique tranquilo: em dois anos ela volta. Fazendo a mesma coisa.
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