[TEXTO Bruno Dias]
Que fique bem claro, não existe a menor possibilidade de se comparar Amy Winehouse com Janelle Monáe. O que se viu na noite de sábado (15/01/2011) no Summer Soul Festival, na Arena Anhembi, em São Paulo, foram duas propostas diferentes de shows. Enquanto Amy dá início ao processo de recuperação de sua carreira (sem trocadilhos), Janelle é uma artista em plena ascensão.
Com atraso de pouco mais de 25 minutos, Amy Winehouse foi apresentada por sua excelente banda de apoio (que conta com o talentosíssimo Zalon Thompson, nos backing vocals) e mostrou a fragilidade de dois anos longe dos palcos, isso sem falar dos abusos com álcool e drogas.
A impressão que se teve durante toda a apresentação da cantora britânica é que sua voz ainda tem potência, mas carece de ensaio e, principalmente, exercícios de aquecimento vocais. Foi nítido que as últimas canções foram mais bem executadas que as primeiras, dando a impressão de que Amy Winehouse foi pegando no tranco, até alcançar seu auge em canções como Valerie (original do The Zutons), Me & Mr. Jones e Love is a losing game, que só apareceram no final.
O repertório escolhido por Amy também pode ter prejudicado seu show, ainda mais em um local para 30 mil pessoas. Predominaram baladas como Lovers never say goodbye (The Flamingos), You’re wondering now (The Specials) e Boulevard of broken dreams (Tony Bennett).
E justiça seja feita, o show de Amy Winehouse está longe de ser uma porcaria, pelo contrário, neste momento é mais uma apresentação de recuperação, uma “rehab” musical. E por falar em Rehab, boa parte dos presentes estava ali apenas para ouvir o hit, que foi executado de forma estranha, com um andamento mais lento.
Esse mesmo público mostrou-se extremamente mal educado, com pessoas de costas para o show, repleto de conversas paralelas e comentários maldosos do tipo: olha, ela coçou o nariz; ela deve ter injetado um monte antes de entrar no palco; e assim por diante. Resumindo, pessoas que estavam ali pela “balada” e não para prestigiar os artistas.
Furacão Janelle
Desconhecida pela maioria dos brasileiros, apesar de ter figurado na maioria das listas de melhores discos de 2010 graças ao álbum The ArchAndroid, Janelle Monáe deve ter surpreendido muita gente com sua potência vocal e desenvoltura no palco.
Artista em ascensão, a pequena cantora e dançarina também contou com brilhantes músicos de apoio e duas dançarinas andróginas. Canções como Faster e Locked Inside, que apareceram logo no início do show, já davam a tônica do que viria pela frente: danças frenéticas (com direito a moonwalk) e muito gingado.
Quando não exagerou na performance (como o desnecessário momento onde ela pintou um quadro no palco), Janelle foi brilhante. Seus dois maiores hits, Cold War (com imagens de Muhammad Ali no telão) e Tightrope (com danças frenéticas), provaram o porquê de Janelle Monáe ser o maior fenômeno da música negra atual, assim como Amy Winehouse já foi um dia.
Come Alive (The War Of The Roses) serviu para descabelar literalmente Janelle Monáe e justificar o título de furacão, muito usado por todos que assistem aos seus shows.
Aberturas de luxo
Instituo e seus convidados ilustres (como Carlos Dafé, Thalma de Freitas, Céu e Emicida); e o cantor nerd soul Mayer Hawthorne foram aberturas de luxo para os shows de Amy Winehouse e Janelle Monáe, estrelas da noite.
Os brasileiros começaram mornos, com uma black music de boutique (que combinava muito bem com o gosto suspeito da maioria dos presentes), mas foram salvos com as performances de Céu e, principalmente, do rapper Emicida.
Já o norte-americano Mayer Hawthorne foi puro estilo. Emendando uma canção atrás da outra, para conseguir mostra o máximo de músicas em cerca de 50 minutos, o cantor colocou o público para dançar com canções como Maybe so, maybe no; Beautiful (de Snoop Dogg); e até com baladas como Just ain’t gonna work out.
Ele até chegou a brincar com sua semelhança com o ator Tobey Maguire, dizendo que uma pessoa pediu seu autógrafo em Florianópolis e o agradeceu dizendo que tinha adorado sua atuação em Homem-Aranha.
Falhas estruturais
O Summer Soul Festival tem tudo para se fixar no calendário de festivais brasileiros, mas precisa superar algumas falhas estruturais desta primeira edição. A começar pelo local escolhido em São Paulo, a péssima e desconfortável Arena Anhembi.
A torre de som no meio do público, no centro do local, prejudicou e muito a visão daqueles que não tinham R$ 700 para desembolsar para desfrutar da gigantesca e inconcebível pista Premium. E olha que quem estava na “pista normal” pagou R$ 200.
Bares lotados e falta de bebida (que chegou a causar um princípio de tumulto) também irritaram a maioria dos 30 mil que estavam no local. Na hora de ir embora outro transtorno, a inexistência de táxis, fazendo muita gente caminhar muito e lutar por carros, correndo o risco de ser atropelado.
O telão, que falhou por cerca de 10 minutos durante o show de Amy Winehouse, também não ajudou muito quem estava longe e queria ver os shows. Era baixo e muito pequeno.
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