Tenho lido aqui opiniões muito divergentes a respeito de Taís Araújo. Por isso decidi me manifestar, para que não fique a menor dúvida do que penso sobre essa pequena notável. Pequena sim, porque Taís é baixinha: tem só 1,65 m. Mas em todo o resto ela é enorme. Tenho a imensa felicidade de conhecê-la, não apenas à frente das câmeras, mas também nos bastidores da fama. E posso atestar o quanto ela é do bem, engraçada, amiga… Ou seja: alguém com quem você tem sempre muito prazer de compartilhar sua vida. A outra grandiosidade de Taís é sua carreira. Aos 31 anos, esta jovem talentosíssima atingiu um patamar invejável: não precisa provar nada para ninguém. Sua trajetória na telona, na telinha e nos palcos fala por si.

Ela já mostrou que manda muito bem na comédia (Xica da Silva, Porto dos Milagres, O Quinto dos Infernos, Cobras & Lagartos, A Guerra dos Rocha…) e que toca fundo quando faz drama (Da Cor do Pecado, Garrincha – Estrela Solitária, Filhas do Vento…). Taís é ótima quando é boa (A Favorita) e é melhor ainda quando é má (Meu Bem Querer). Agora, em Viver a Vida, a atriz está na linha de frente de um trabalho monumental. Protagonizar uma trama das 9, da Globo, é um peso tão grande que apenas quem já teve de segurá-lo pode saber como é. Mas ela vem cumprindo sua missão com louvor.
Destaco facilmente no mínimo quatro cenas antológicas protagonizadas por ela na novela de Manoel Carlos: o recente reencontro de Helena e Luciana (Alinne Moraes), em que as duas brilharam intensamente; a culpa que sua personagem carregou após a enteada ter sofrido o acidente que a deixou tetraplégica; o acerto de contas da modelo com Sandrinha (Aparecida Petrowky) e o aborto espontâneo que Helena sofreu. Selecionei esses quatro momentos para não me prolongar demais. Mas eles simbolizam bem a força dramática que a atriz conseguiu imprimir.

Taís tem nas mãos a mais complexa Helena, de Manoel Carlos. Já escrevi aqui que não tenho um grande apreço pelas protagonistas das histórias do novelista e que prefiro sempre as personagens coadjuvantes. Mas quando digo que essa é a mais difícil de todas é porque as outras eram mulheres maduras, saídas (ou em vias de…) relacionamentos fracassados, que não tinham pudores em guiar suas vidas como bem entendessem. Elas podiam ser transgressoras porque já haviam cumpridos os papéis aos quais foram destinadas. Mas a Helena de Taís, não. Ela ainda está desabrochando, tentando acertar e errando muito. Uma jovem que, apesar de ter a cabeça no lugar, não tem prumo. Deixa-se guiar ao sabor do vento e das emoções. As Helenas anteriores foram essa Helena um dia. Caso suas histórias fossem contadas desde jovens, é bem provável que todas tivessem cometendo os mesmos erros que Helena/Taís.
O bom é que Taís não tem o menor pudor de se jogar de corpo e alma nas inseguranças da personagem. Já vi gente reclamando que ela estava artificial, mas, na verdade, Helena era artificial. Ela venceu na vida muito cedo, enfrentou preconceitos e chegou aonde queria com a força de seu trabalho. Isso a deixou altiva e arrogante, em alguns momentos. E tudo isso Taís usou em sua composição. Após o acidente de Luciana, ela também mudou. Graças a Deus, Helena não perdeu sua altivez, mas está mais humilde e consciente das puxadas de tapete da vida. Ela sofrerá outros baques fortes, ao descobrir que Marcos (José Mayer) a traiu com Dora (Giovanna Antonelli) e que está envolvida justamente com o filho bastardo de seu marido (Bruno, interpretado por Thiago Lacerda).

Gosto muitíssimo da linha de interpretação adotada pela atriz. Ela não quer roubar cenas, e sim somar: emprestar seu talento para fazer as tomadas mais bonitas e verdadeiras. Infelizmente, Viver a Vida estacionou no tempo e espaço, mas isso não é culpa dela. A novela está focada demais no drama de Luciana, e com isso a trama de Helena ficou em segundo plano. Mesmo assim Taís não perdeu o pique ou desanimou e vai levando a personagem com dignidade. E, em breve, terá mais chances de pontificar a novela. Pode aguardar!
Viajando um pouco no tempo a gente percebe que a missão de Taís é ser a primeira em tudo. Era para ela ter vivido a Ressu, protagonista de Tocaia Grande (1995), na Manchete, mas a direção precisava de uma atriz um pouco mais velha e a personagem foi parar nas mãos de Giovanna Antonelli. No ano seguinte, ela quase deixou de ser Xica da Silva, pelo mesmo motivo. Mas o visionário Walter Avancini teve a sensibilidade de perceber que nenhuma outra atriz poderia fazer aquele personagem com tamanha entrega. E Taís foi jogada aos lobos… Estreou na pele da escrava rainha ainda meio trôpega, mas virou o jogo e terminou a trama consagrada.

Em 1997 já foi contratada pela Globo para viver uma jovem revoltada em Anjo Mau e emendou bons trabalhos na casa, como a malvada Edivânia, de Meu Bem Querer (1998), as engraçadas Emilinha (Uga Uga, 2000), Selminha (Porto dos Milagres, 2001) e Dandara (O Quinto dos Infernos, 2002). Até transformar-se na primeira protagonista negra de novelas da Globo, como a batalhadora Preta, de Da Cor do Pecado (2004). Depois de virar Nossa Senhora Aparecida, em América (2005), roubou todas as cenas com a ambiciosa Ellen, de Cobras & Lagartos (2006), e, junto com seu atual marido, Lázaro Ramos, tirou de Mariana Ximenes e Daniel de Oliveira os postos de estrelas do folhetim de João Emanuel Carneiro. O reencontro com João Emanuel, em A Favorita (2008), pode ter sido meio decepcionante, mas guardo algumas boas lembranças da abusada Alicia Rosa.

No cinema, ela brilhou em filmes como Caminho dos Sonhos (1998), Garrincha – Estrela Solitária (2003), Filhas do Vento (2004), Nzinga (2006), O Maior Amor do Mundo (2006) e A Guerra dos Rocha (2008). Ano passado, a atriz retornou à tela absolutamente deslumbrante, em Viver a Vida. E pronta para dar o seu melhor. Madura e consciente, sabe que não terá nunca a unanimidade. Mas acho que ela nem quer isso. Taís Araújo deseja apenas fazer seu trabalho com dedicação e dignidade. E ela é mestra nisso. Estou com Taís e não abro.
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