Numa entrevista à MINHA NOVELA, Aracy Balabanian confessou que está assustada com as inversões de valores que assolam o Brasil. O que mais a choca é o fato de os espectadores acharem Gemma, sua personagem em Passione, uma chata de galocha e torcerem fervorosamente pela safada da Clara (Mariana Ximenes). Ela tem um pouco de razão, só que, na verdade, esse cenário não é novo.
Maria de Fátima (Gloria Pires), Altiva (Eva Wilma), Laura (Claudia Abreu), Nazaré (Renata Sorrah), Ellen (Taís Araújo), Flora (Patrícia Pillar) e Tereza (Lilia Cabral), entre muitas outras, tiveram bem mais destaque do que as mocinhas de Vale Tudo, A Indomada, Celebridade, Senhora do Destino, Cobras & Lagartos, A Favorita e Viver a Vida, respectivamente. E olha que a última nem era vilã, tipo de personagem que geralmente desperta mais fascínio. A verdade é que viver a heroína de uma novela não é nada fácil. O lado bom é que a mocinha normalmente é a protagonista da trama, o que dá um tremendo prestígio e aumenta consideravelmente os dígitos no salário da atriz. Mas caso a personagem não seja lá muito bem construída, ela pode virar um pesadelo para a criatura que a interpreta.
Mocinha tem que sofrer, não tem jeito. Mas aquela chorosa demais cansa a beleza do público. As que não são lá muito corretas também logo ganham a antipatia do espectador. A Rede Globo passou perrengue com suas três últimas mocinhas. Juliana Paes pastou no início de Caminho das Índias (2008). Maya não agradou muito e o par romântico com Bahuan (Márcio Garcia) naufragou antes mesmo de ser lançado ao mar. A sorte da atriz é que toda a mágica cultura indiana fascinou tanto o público que o pouco conteúdo dramático da personagem foi disfarçado. Depois do casamento com Raj (Rodrigo Lombardi), Juliana começou a virar o jogo e terminou consagrada nos braços do povo.
Taís Araújo não teve a mesma sorte em Viver a Vida. Pelo contrário. Sua Helena iniciou a novela até bem. Decidida, realizada e belíssima, a modelo parecia que ia tomar conta do mundo. Mas, apesar do talento e dos esforços de Taís, a protagonista da história de Manoel Carlos murchou e perdeu o posto para uma mocinha mais altiva e dramática, Luciana (Alinne Moraes), e para a mãe dela, dondoca Tereza, que, além de tudo, ainda era muito antipática. Vai entender…
Agora, o mesmo problema acontece em Passione. A trama de Silvio de Abreu tem duas heroínas: a idosa Bete (Fernanda Montenegro), e sua saga para recuperar a maternidade perdida de Totó (Tony Ramos), e a mocinha romântica, Diana (Carolina Dieckmann). Por incrível que pareça as duas são firmes, batalhadoras, choram muito, mas também não se entregam… Ou seja: todas as características de papéis que encantam o público.
Mas diferentes de outras personagens com essas características que arrebataram torcidas pelo Brasil afora, como Solange (Lídia Brondi), de Vale Tudo, Rose (Camila Pitanga), de Cama de Gato, e, agora, a Viviane (Nathália Dill), de Escrito nas Estrelas, elas são acometidas de um pecado capital: são muito chatas. Bete tem motivos para sofrer, mas se lamenta demais, clama por Deus e todos os santos a toda hora e vive se arrastando pelos cômodos de sua chiquérrima mansão como um fantasma em agonia.
Já Diana não tem moral nenhuma: trai o marido, Gerson (Marcello Antony), debaixo do nariz dele e ainda banca a dona da verdade. É para irritar mesmo. Com isso, Mariana Ximenes e Mayana Moura pintam e bordam. A maléfica Clara tem humor, sua infância foi sofrida e ela luta com as armas que tem para conseguir o que quer. E nem o fato de não ter nenhum caráter abala a simpatia do público. Já Melina tem um amor sincero por Mauro (Rodrigo Lombardi) e é charmosa, cheia de vida e faz picadinho da rival sempre que as duas estão em cena.
Ser mocinha de novela, definitivamente, é muito estressante. Mas ainda acredito que, com boas doses de bom senso e criatividade, é possível fugir dos clichês e surpreender o público. Serafina (Carla Marins), de Uma Rosa Com Amor, e Ligia (Miriam Freeland), de Poder Paralelo (2009), são outros exemplos recentes de que a personagem pode ser ética, do bem e batalhadora sem ser chata. Mas mesmo assim, se eu fosse ator, iria preferir fazer maldades na ficção ou então interpretar qualquer papel secundário, desde que tivesse conflitos inteligentes e desafiadores. Ser o chatinho do momento, realmente, não está com nada.
































