Sabe qual foi a sensação que me deu depois de, durante duas semanas, assistir a Corações Feridos, no SBT, e, logo depois, emendar em O Brado Retumbante, na Rede Globo? A mesma de ao sair da peça montada por um amigo para conferir O Despertar da Primavera. Eram dois musicais, sendo que o trabalho do meu amigo, coitado, era extremamente amador. Um grupo sem experiência e vivência de palco, o que resultou num dos momentos mais constrangedores da minha vida, já que precisei dizer mirando no olho dele, o que achei de sua estreia como dramaturgo e diretor. Foi duro! Já O Despertar da Primavera, nem era uma superproduções, mas o texto era tão bom, a direção impecável e o grupo de atores/cantores tão extraordinários que fiquei morrendo de pena e (ao mesmo tempo) raiva do meu amigo, tamanha a diferença de qualidade entre as duas produções.
Pois foi assim mesmo que fiquei. O Brado Retumbante foi impecável, do início ao fim. O inevitável gostinho de quero mais ficou dentro de mim e também um desejo muito grande de que a Globo produza uma segunda parte ou transforme o programa em seriado. Mas nem vou criar expectativas em relação a isso, já que o protagonista Domingos Montagner está escalado para a próxima trama de Glória Perez e não quero ficar amargurado. Até hoje não me conformo por A Cura simplesmente ter acabado cheia de lacunas, dúvidas e questões a serem desenvolvidas. Na verdade, eu estava com um pé atrás em relação a O Brado Retumbante, porque não tenho a menor paciência para temas políticos. Mas ao ler a sinopse, fiquei curioso para ver o tratamento que o autor, Euclydes Marinho, iria dar para um personagem tão complexo como Paulo Ventura. Político idealista, ético e incansável na luta pela moralização da política brasileira, Paulo Ventura é tudo que o povo sempre sonhou. É quase um Don Quixote, com a diferença que ele não lutou contra moinhos de vento e sim com monstro realmente terríveis com quem a gente, infelizmente, se depara todos os dias. Só que, ao mesmo tempo em que ele é um político tudo de bom, na vida pessoal Paulo só fez trapalhadas. Expulsou o filho, Júlio (Murilo Armacollo), de casa por ser homossexual, nunca soube lidar com a bipolaridade da filha, Marta (Juliana Schalch), e era um galinha de marca maior. Paulo Ventura nunca traiu seu eleitorado, em compensação encheu a cabeça da esposa, Antônia (Maria Fernanda Cândido), de chifres e se entregou ao álcool quando ela lhe deu o troco. Ou seja: um herói imperfeito, um ser humano comum como qualquer um de nós, magnificamente vivido por Domingos Montagner.
Nunca vi uma obra tão transparente quanto O Brado Retumbante. Amei a seriedade, inteligência e talento com que contou a trajetória de Paulo Ventura, um acidental presidente do Brasil. O grande barato do programa foi o tratamento dado ao universo político nacional, geralmente abordado com humor e chacota. Nossos políticos na ficção já eram corruptos, safados, amorais, só que também engraçados, caricatos e, por isso mesmo, totalmente perdoáveis. Desta vez, não. Toda repugnância que existe nesse meio foi jogado na cara do público e isso é muito bom para que a gente aprenda a votar. Mas infelizmente, a série teve uma baixa audiência, só revelando o quanto o grande público prefere produções mais fáceis de digerir. Realmente assistir a algo que faça pensar naquela hora da noite, não é fácil não. Mesmo assim, O Brado Retumbante teve seus momentos de humor. Um pouco mais escrachado no texto de Beijo (Otávio Augusto) e bem mais irônico nos outros núcleos. Mas, no geral, o tema é tratado com total seriedade e em tom de denúncia. Todas essas corrupções, safadezas e negociatas que tanto lemos nos jornais estiveram lá reveladas em letras bem grandes. O jogo político, muitas vezes sujo e sem compreensão para a maioria de nós, foi retratado sem didatismo, mas muito fácil de ser compreendido. Muito bom mesmo.
Além do ótimo Domingos Montagner, todo o elenco da minissérie merece aplausos. Maria Fernanda Cândido – que sempre achei muito apática – estava muito bem como a primeira-dama; Maria do Carmo Soares roubou todas as cenas como a venenosa mãe do presidente e José Wilker e Otávio Augusto mais uma vez se superaram como os safados Floriano e Beijo. Curti demais também Mariana Lima (Fernanda), Cacá Amaral (Saldanha), Valter Santos (Werneck), Leopoldo Pacheco (Tony), Hugo Carvana (Mourão), a já citada Juliana Schalch e o mitológico Luiz Carlos Miele, como o satânico Senador Nicodemo. Uma equipe nota 10, que fez de O Brado Retumbante um programa inesquecível.
Mas antes desse banquete para o cérebro, tive que digerir Corações Feridos… Tive muita boa vontade para a nova novela do SBT, sabia? Corações Feridos é uma adaptação da trama latina, La Mentira e só isso já garante à trama um componente folhetinesco que é fundamental. Pelo menos no quesito dramaturgia, Corações Feridos dá um banho em sua antecessora, Amor e Revolução. O maior pecado da bem intencionada novela de Tiago Santiago foi parecer um livro de História daquele bem pesado e chato. Já o enredo da adaptação de Iris Abravanel não poderia ser mais rocambolhesco. Eu gosto assim! Mas veja bem. O risco que uma trama desse tipo corre é enorme e para fugir do folhetim para cair no ridículo não custa. O que está acontecendo em Corações Feridos. A autora não percebeu que nem tudo que é bom para o México, funciona no Brasil. Diferentes de Gisele Joras (em Bela, A Feia) e Margareth Boury (Rebelde), Íris não conseguiu transpor para nossa realidade a história absurda bolada por Caridad Bravo Adams.
Por favor, em que lugar do mundo hoje em dia alguém manda uma carta de próprio punho para o amante, assumindo que fez um aborto, roubou o dinheiro do cara e que ainda o está deixando? Em tempos de contas e e-mails falsas e torpedos impossíveis de serem rastreados, só mesmo no SBT alguém escreve uma carta. Se a novela ainda se passasse nos anos 1970 ou 1980… Tudo bem! Mas hoje em dia? Eu heim!
Para piorar, o texto é de uma artificialidade assustadora e todo o resto segue nessa toada. Os cenários abusam da cafonice, na tentativa de vender riqueza e são excessivamente simplórios nos núcleos menos abastados. Os figurinos não pecam tanto, mas também não combinam com os personagens. Mas nada é pior do que o elenco. Como a fútil Vera, Jacqueline Dalabona extrapola o direito de ser ruim. Nada do que ela fala é crível e não suportou mais ouví-la ela ficar repetindo a cada momento quê “Aline é a única mulher que está à repetir a casa segundo que “Aline (Cynthia Falabella) é a única mulher à altura de casar com meu filho Vitor (Victor Pecoraro)”. Como se, além de tudo, ela tivesse outro… Pecoraro, aliás, desfila a mesma canastrice vista em Aquele Beijo e, para piorar ainda mais Cynthia Falabella vive exatamente em Corações Feridos a mesmíssima personagem em Aquele Beijo: a periguete safadona, que se faz se santa para algumas pessoas, mas é uma megera das boas. Cynthia tem um bom perfil para esse tipo de papel e, em alguns momentos, consegue uma boa atuação. Mas sua missão é complicada, já que tem envolta “atores” como Paulo Coronato (Olavo), Ronaldo Oliva (Flávio), Lilian Fernandes (Luci) e os já citados Dalabona e Pecoraro. Sem falar no canastrão Marco Antônio Pâmio (Michel) e em Iara Jamra fazendo eternamente a maluquinha de voz esganiçada. Cada vez que ela abre a boca aciono o mudo do meu controle remoto.
Já os protagonistas Flávio Tolezani (Eduardo) e Patrícia Barros (Amanda) transitam entre bons e maus momentos. Lindos demais, eles fazem um belo par, mas, coitados não têm qualquer apoio do roteiro para desenvolvem seus personagens. Tudo é muito superficial, fútil e mesmo a vingança de Eduardo não faz muito sentido, já que, primeiro, ele deveria tentar salvar a fazenda do irmão, Rodrigo (Paulo Zulu), e depois querer se vingar da mulher que fez tanto mal ao pobrezinho. Mesmo com tudo contra, Flávio e Patrícia se esforçam. Aliás… O que é Paulo Zulu? Sei lá… Nem existem palavras para descrever sua incapacidade de atuar. Ele e Jacquline Dalabona já despontam como franco-favoritos ao título de piores atores de 2012. Já no núcleo rural a situação é um pouco melhor. O veterano Antônio Abujamra (Dante) está correto, assim como Junno Andrade (Eliseu), Beto Nasci (Glauco), Cláudio Andrade (Luciano), Lena Whitaker (Maria) e Lívia Andrade, que está fofa com o a capial Janaina. Mas Corações Feridos está ainda muito no início. Vamos ver como essa turma vai se comportar nos próximos meses! Estou de olho!











































