BLOGs / TV por Jorge Brasil

Arquivo de janeiro de 2012

Entre a maturidade de O Brado Retumbante e o amadorismo de Corações Feridos

sábado, janeiro 28th, 2012

Domingo Montagner deu um show em O Brado Retumbante

Sabe qual foi a sensação que me deu depois de, durante duas semanas, assistir a Corações Feridos, no SBT, e, logo depois, emendar em O Brado Retumbante, na Rede Globo? A mesma de ao sair da peça montada por um amigo para conferir O Despertar da Primavera. Eram dois musicais, sendo que o trabalho do meu amigo, coitado, era extremamente amador. Um grupo sem experiência e vivência de palco, o que resultou num dos momentos mais constrangedores da minha vida, já que precisei dizer mirando no olho dele, o que achei de sua estreia como dramaturgo e diretor. Foi duro! Já O Despertar da Primavera, nem era uma superproduções, mas o texto era tão bom, a direção impecável e o grupo de atores/cantores tão extraordinários que fiquei morrendo de pena e (ao mesmo tempo) raiva do meu amigo, tamanha a diferença de qualidade entre as duas produções.

José Wilker, Murilo Armacollo e Luiz Carlos Miele: problemas para o presidente

Pois foi assim mesmo que fiquei. O Brado Retumbante foi impecável, do início ao fim. O inevitável gostinho de quero mais ficou dentro de mim e também um desejo muito grande de que a Globo produza uma segunda parte ou transforme o programa em seriado. Mas nem vou criar expectativas em relação a isso, já que o protagonista Domingos Montagner está escalado para a próxima trama de Glória Perez e não quero ficar amargurado. Até hoje não me conformo por A Cura simplesmente ter acabado cheia de lacunas, dúvidas e questões a serem desenvolvidas. Na verdade, eu estava com um pé atrás em relação a O Brado Retumbante, porque não tenho a menor paciência para temas políticos. Mas ao ler a sinopse, fiquei curioso para ver o tratamento que o autor, Euclydes Marinho, iria dar para um personagem tão complexo como Paulo Ventura. Político idealista, ético e incansável na luta pela moralização da política brasileira, Paulo Ventura é tudo que o povo sempre sonhou. É quase um Don Quixote, com a diferença que ele não lutou contra moinhos de vento e sim com monstro realmente terríveis com quem a gente, infelizmente, se depara todos os dias. Só que, ao mesmo tempo em que ele é um político tudo de bom, na vida pessoal Paulo só fez trapalhadas. Expulsou o filho, Júlio (Murilo Armacollo), de casa por ser homossexual, nunca soube lidar com a bipolaridade da filha, Marta (Juliana Schalch), e era um galinha de marca maior. Paulo Ventura nunca traiu seu eleitorado, em compensação encheu a cabeça da esposa, Antônia (Maria Fernanda Cândido), de chifres e se entregou ao álcool quando ela lhe deu o troco. Ou seja: um herói imperfeito, um ser humano comum como qualquer um de nós, magnificamente vivido por Domingos Montagner.

Mariana Lima e Maria Fernanda Cândido: as duas mulheres do presidente

Nunca vi uma obra tão transparente quanto O Brado Retumbante. Amei a seriedade, inteligência e talento com que contou a trajetória de Paulo Ventura, um acidental presidente do Brasil. O grande barato do programa foi o tratamento dado ao universo político nacional, geralmente abordado com humor e chacota. Nossos políticos na ficção já eram corruptos, safados, amorais, só que também engraçados, caricatos e, por isso mesmo, totalmente perdoáveis. Desta vez, não. Toda repugnância que existe nesse meio foi jogado na cara do público e isso é muito bom para que a gente aprenda a votar. Mas infelizmente, a série teve uma baixa audiência, só revelando o quanto o grande público prefere produções mais fáceis de digerir. Realmente assistir a algo que faça pensar naquela hora da noite, não é fácil não. Mesmo assim, O Brado Retumbante teve seus momentos de humor. Um pouco mais escrachado no texto de Beijo (Otávio Augusto) e bem mais irônico nos outros núcleos. Mas, no geral, o tema é tratado com total seriedade e em tom de denúncia. Todas essas corrupções, safadezas e negociatas que tanto lemos nos jornais estiveram lá reveladas em letras bem grandes. O jogo político, muitas vezes sujo e sem compreensão para a maioria de nós, foi retratado sem didatismo, mas muito fácil de ser compreendido. Muito bom mesmo.
Além do ótimo Domingos Montagner, todo o elenco da minissérie merece aplausos. Maria Fernanda Cândido – que sempre achei muito apática – estava muito bem como a primeira-dama; Maria do Carmo Soares roubou todas as cenas como a venenosa mãe do presidente e José Wilker e Otávio Augusto mais uma vez se superaram como os safados Floriano e Beijo. Curti demais também Mariana Lima (Fernanda), Cacá Amaral (Saldanha), Valter Santos (Werneck), Leopoldo Pacheco (Tony), Hugo Carvana (Mourão), a já citada Juliana Schalch e o mitológico Luiz Carlos Miele, como o satânico Senador Nicodemo. Uma equipe nota 10, que fez de O Brado Retumbante um programa inesquecível.

Flávio Tolezani e Patrícia Barros: lindos e esforçados

Mas antes desse banquete para o cérebro, tive que digerir Corações Feridos… Tive muita boa vontade para a nova novela do SBT, sabia? Corações Feridos é uma adaptação da trama latina, La Mentira e só isso já garante à trama um componente folhetinesco que é fundamental. Pelo menos no quesito dramaturgia, Corações Feridos dá um banho em sua antecessora, Amor e Revolução. O maior pecado da bem intencionada novela de Tiago Santiago foi parecer um livro de História daquele bem pesado e chato. Já o enredo da adaptação de Iris Abravanel não poderia ser mais rocambolhesco. Eu gosto assim! Mas veja bem. O risco que uma trama desse tipo corre é enorme e para fugir do folhetim para cair no ridículo não custa.  O que está acontecendo em Corações Feridos. A autora não percebeu que nem tudo que é bom para o México, funciona no Brasil. Diferentes de Gisele Joras (em Bela, A Feia) e Margareth Boury (Rebelde), Íris não conseguiu transpor para nossa realidade a história absurda bolada por Caridad Bravo Adams.
Por favor, em que lugar do mundo hoje em dia alguém manda uma carta de próprio punho para o amante, assumindo que fez um aborto, roubou o dinheiro do cara e que ainda o está deixando? Em tempos de contas e e-mails falsas e torpedos impossíveis de serem rastreados, só mesmo no SBT alguém escreve uma carta. Se a novela ainda se passasse nos anos 1970 ou 1980… Tudo bem! Mas hoje em dia? Eu heim!

Cynthia Falabella e Paulo Zulu: ela está bem, ele péssimo

Para piorar, o texto é de uma artificialidade assustadora e todo o resto segue nessa toada. Os cenários abusam da cafonice, na tentativa de vender riqueza e são excessivamente simplórios nos núcleos menos abastados. Os figurinos não pecam tanto, mas também não combinam com os personagens. Mas nada é pior do que o elenco. Como a fútil Vera, Jacqueline Dalabona extrapola o direito de ser ruim. Nada do que ela fala é crível e não suportou mais ouví-la ela ficar repetindo a cada momento quê “Aline é a única mulher que está à repetir a casa segundo que “Aline (Cynthia Falabella) é a única mulher à altura de casar com meu filho Vitor (Victor Pecoraro)”. Como se, além de tudo, ela tivesse outro… Pecoraro, aliás, desfila a mesma canastrice vista em Aquele Beijo e, para piorar ainda mais Cynthia Falabella vive exatamente em Corações Feridos a mesmíssima personagem em Aquele Beijo: a periguete safadona, que se faz se santa para algumas pessoas, mas é uma megera das boas. Cynthia tem um bom perfil para esse tipo de papel e, em alguns momentos, consegue uma boa atuação. Mas sua missão é complicada, já que tem envolta “atores” como Paulo Coronato (Olavo), Ronaldo Oliva (Flávio), Lilian Fernandes (Luci) e os já citados Dalabona e Pecoraro. Sem falar no canastrão Marco Antônio Pâmio (Michel) e em Iara Jamra fazendo eternamente a maluquinha de voz esganiçada. Cada vez que ela abre a boca aciono o mudo do meu controle remoto.
Já os protagonistas Flávio Tolezani (Eduardo) e Patrícia Barros (Amanda) transitam entre bons e maus momentos. Lindos demais, eles fazem um belo par, mas, coitados não têm qualquer apoio do roteiro para desenvolvem seus personagens. Tudo é muito superficial, fútil e mesmo a vingança de Eduardo não faz muito sentido, já que, primeiro, ele deveria tentar salvar a fazenda do irmão, Rodrigo (Paulo Zulu), e depois querer se vingar da mulher que fez tanto mal ao pobrezinho. Mesmo com tudo contra, Flávio e Patrícia se esforçam. Aliás… O que é Paulo Zulu? Sei lá… Nem existem palavras para descrever sua incapacidade de atuar. Ele e Jacquline Dalabona já despontam como franco-favoritos ao título de piores atores de 2012. Já no núcleo rural a situação é um pouco melhor. O veterano Antônio Abujamra (Dante) está correto, assim como Junno Andrade (Eliseu), Beto Nasci (Glauco), Cláudio Andrade (Luciano), Lena Whitaker (Maria) e Lívia Andrade, que está fofa com o a capial Janaina. Mas Corações Feridos está ainda muito no início. Vamos ver como essa turma vai se comportar nos próximos meses! Estou de olho!

De “reality”, o Big Brother Brasil não tem mais nada

sexta-feira, janeiro 20th, 2012


Vou te contar uma coisa. Acho que eu era um dos últimos seres sobre a face da terra que ainda tinha fé na credibilidade do Big Brother Brasil. É claro que não sou ingênuo a ponto de não saber que rola uma manipulaçãozinha aqui,  outra ali, principalmente, no que é exibido na TV aberta, já que o programa precisa de personagens bem definidos, como a mocinha, o herói, o vilão, o casal apaixonado, a invejosa… Tanto que na 12ª edição os participantes ganharam essas alcunhas logo no primeiro episódio. Fora isso, eu realmente acreditava que o reality show deixava os competidores livres para eles mostrarem seu melhor e seu pior (ou os dois juntos) nessa ciranda de vaidades, traições e libertinagens que esse tipo de atração demanda. Sim, porque o BBB é para quem curte tomar conta da vida alheia e quando mais sujeira e barraco o vizinho tiver, melhor. O puritano que não goste de sacanagem, briga, palavrão, vabagundas e ogros, que vá ler um livro, assistir ao Discovery Channel ou dormir. Ninguém é obrigado a ver na TV aquilo que não gosta. Nada é mais democrático do que o controle remoto. Mas com o escândalo do pseudo abuso/estupro, teoricamente cometido por Daniel em Monique, jogou por terra minha fé no BBB. O tratamento que a direção do programa deu ao público em relação a esse polêmico caso é vergonhoso e ainda mais indecente do que as imagens do casal se bolinando sob o edredon. Ao censurar de tal forma tudo o que aconteceu, o programa simplesmente deixou de ser uma novela da vida real. De reality, o Big Brother Brasil 12 não tem mais nada.

Imagina comigo. Você vive numa vila e um dos moradores é acusado de abusar de uma garota bêbada. No mínimo isso viraria um escândalo daqueles no lugar. Mas na casa do BBB não. Ninguém toca no assunto, todos agem como se Daniel nunca tivesse habitado aquele espaço e Monique continua brincando, se divertindo, bebendo e participando das provas como se a polícia não tivesse passado por seus direitos de cidadã e levado sua calcinha e roupa de cama para fazer perícia. Vai me desculpar, mas quando a vítima de um abuso se recusa e – pior – nega a “violência”, quem é esse delegado para passar por cima do direito da moça? Pra mim, o que a polícia quer é aparecer na capa dos jornais, como vem acontecendo. Não tem um bandidinho na Cidade Maravilhosa para eles caçarem, não? Fala sério!

Boninho, o Big Boss do BBB

Mas, voltando ao programa, certamente o diretor, Boninho, baixou uma portaria violenta, proibindo que todos se referissem ao caso. E isso é aviltante, especialmente, para aqueles que compram o pay perview e querem assistir a tudo sem cortes. A partir do momento que rola censura e impede-se a liberdade de expressão dos participantes, acabou todo sentido de um show da vida. O que assistimos agora é uma novela safada, chata, com um bando de gente desinteressante. O que todo mundo esperava e merecia receber do programa era:

1) uma satisfação decente de Pedro Bial sobre o que aconteceu. E não aquela babaquice de “O participante Daniel foi contra uma importante regra do programa e, por isso, está eliminado”. Que regra foi essa? Estou esperando até agora, Sr. Bial. Eu e todo o público temos o direito de saber qual foi a regra que Daniel quebrou, já que o BBB sempre estimulou a sacanagem sob os edredons e, inclusive, antes de criarem todo esse burburinho, o apresentou chegou a exclamar, “É o amor!”, após exibirem cenas cortadíssimas de Daniel e Monique na cama. Bial ainda perguntou a ela: “É namoro ou amizade, Monique?”. “É só um lance”, respondeu a moça! Pergunto mais uma vez: qual foi a regra quebrada, já que Bial considerou romântico o rala e rola entre o casal?

2) Mostrar a comunicação do Big Boss a Daniel de que ele estava eliminado. Estou esperando até agora as cenas com a saída de Daniel da casa. Quero e faço questão de assistir, afinal, não estamos acompanhando a um reality show? Por que tudo foi feito na encolha?

Foto: Divulgação/TV Globo

3) Bial tem que fazer um jogo da verdade com os participantes debatendo o caso ou até submeter Daniel e Monique à máquina da verdade. Quantas vezes esse recurso já foi utilizado para bobagens. Agora, num momento sério, seria muito mais útil e emocionante para o público.
Mas duvido que isso acontecerá. Perdi totalmente o interesse pelo Big Brother e olha que eu era um dos maiores defensores do programa. Eu votava loucamente no candidato que eu queria eliminar, fazia campanha, chorava com as eliminações, gargalhava com as bobagens, curtias as festas… Realmente entrava de cabeça no espírito do programa. Agora me sinto traído e essa sensação é horrível. Estou com a certeza dentro de mim que estou sendo feito de bobo há anos. Infelizmente tenho que acompanhar o “ficcional show” por uma questão profissional. Só vejo uma saída para Boninho salvar a situação, já que é impossível rebobinar a fita e apagar a cagada toda: fazer uma mea culpa, levar Daniel de volta para a casa e passar a jogar limpo com seu público. Afinal, como Pedro Bial sempre disse, quem manda no Big Brother Brasil é (ou era e deveria ser) o espectador. Do contrário, é melhor fechar de vez as cortinas, enquanto ainda há um pingo de dignidade por lá.

Que delícia matar a saudade de Dercy Gonçalves, em Dercy de Verdade!

sábado, janeiro 14th, 2012

Foto de divulgação/Rede Globo

Sintetizar em quatro capítulos, os 101 anos da vida riquíssima de uma mulher polêmica como Dercy Gonçalves é, no mínimo, uma tarefa digna dos 12 trabalhos de Hércules. Mas essa missão foi executada com maestria por Maria Adelaide Amaral em Dercy de Verdade, que chegou ao fim na sexta-feira 13 na telinha da Globo. Tudo bem que a autora já tinha um amplo conhecimento de causa, porque adaptou a própria biografia que escreveu sobre a trajetória da comediante: Dercy de Cabo a Rabo. Mas, mesmo assim, não deve ter sido fácil. É verdade também que eu fiquei com um gostinho de quero mais e com a impressão de que a microssérie poderia ter tido, pelo menos, mais uma semaninha. Mas o que Maria Adelaide, amparada pela direção sempre festiva de Jorge Fernando, conseguiu foi quase um milagre. Dercy de Verdade serviu também para colocar em cheque a versatilidade de Heloísa Perissé Fafy Siqueira e acabar com essa história de que humorista não sabe fazer chorar.
Pois eu chorei sim em alguns momentos de Dercy de Verdade, especialmente, no fim.

Fotos de arquivo

Eu praticamente vivi toda a minha história vendo Dercy Gonçalves na TV. Nem sei quantas vezes cai do sofá de tanto rir com as maluquices dela no sofá da Hebe Camargo, ou com as tiradas rápidas e certeiras nos quadros do Domingão do Faustão. A Celestina, de Deus nos Acuda (1992); a Mamma, de La Mamma (1990) e a Baronesa Eknésia, de Que Rei Sou Eu? (1989) também foram momentos impagáveis de uma carreira vitoriosa. E tudo isso foi retratado na minissérie, seja em forma dramatúrgica ou em imagens de arquivo.  Aliás, a mistura de documentário com ficção foi um acerto gigantesco da produção. Os mais velhos vibraram ao relembrar as cenas que presenciaram e os jovens tiveram a chance de ver Dercy mais nova, já que, para muita gente, ela já havia nascido idosa (risos).

Foto de divulgação/Rede Globo

A parte técnica de Dercy de Verdade foi uma preciosidade. Os figurinos e cenários eram lindos e perfeitos. E a fotografia deu um tom de cinema para o programa e não é à toda que a série chegará à tela grande em 2013. O texto recuperou frases antológicas da homenageada, como: “Eu não falo palavrão. Eu falo as coisas do jeito que elas são”, “no amore na guerra a gente em que ser safado” e “Tudo que passou, acabou. Eu sobrevivi!”. E valorizou tanto as passagens cômicas como as dramáticas da vida de Dercy. E elas não foram poucas.

Foto de divulgação / Rede Globo

No elenco homogêneo destaque para Cássio Gabus Mendes, Fernando Eiras, Walter Breda, Rosi Campos, Tuca Andrada e Armando Babaioff. Já Diogo Boni, interpretando seu próprio pai, o mitológico José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vulgo Boni, entregou ao público alguns dos momentos mais constrangedores da história da TV brasileira.

Foto de divulgação /Rede Globo

No que se refere às três intérpretes de Dercy Gonçalves, Luiza Perissé nem merece nota, porque nada fez. Sua participação não chegou a um minuto e logo foi substituída por sua mãe, Heloísa Perissé. O que foi um tremendo erro. Apesar de famosa por interpretar a adolescente Tati, do quadro do Fantástico, a atriz não convenceu como uma menina de 17 anos. Em alguns momentos chegou a ser constrangedor. Mas esse problema foi superado quando Dercy chegou à fase adulta. Heloísa surpreendeu. E positivamente. Soube dosar o temperamento explosivo de Dercy, como momentos de carência e fragilidade, que ela só revelava às pessoas mais íntimas. Foi muito bem nas cenas de comédia (o que era de se esperar) e melhor ainda nas mais tristes. Parabéns!
Só que, por melhor que Heloísa tenha se saído, ela não conseguiria mesmo superar Fafy Siqueira, a Dercy já na terceira idade. Além de amiga pessoas da humorista, Fafy também é uma excelente imitadora, mas não foi isso que ela fez na minissérie. Fafy realmente interpretou Dercy. Estava parecidíssima com a homenageada nas sequências de palco, que foram gravadas no lindo Teatro Municipal de Niterói (RJ) e esplendorosa como a Dercy estrelíssimas dos programas de TV da Globo e da Record. Por isso fiquei com tanta vontade de assistir mais de Dercy de Verdade: para me deliciar com a atuação de Fafy Siqueira. Mas, talvez, Maria Adelaide realmente estivesse certa e tudo tenha sido e estruturado na medida certa. Foi ótimo matar as saudades de Dercy Gonçalves e como canta o samba-enredo da Unidos da Viradouro (que a homenageou em sua estreia no Grupo Especial carioca, em 1991, devidamente mostrado na minissérie, mas não creditado…): “Ah! Obrigado Dercy, mercy, Dercy!… Bravo, bravíssimo ! Mil aplausos pra você Dercy. Ao retrato de um povo, a homenagem da Viradouro!”

 

… E o tempo não passa em Vidas em Jogo

sexta-feira, janeiro 6th, 2012
vidas em jogo

Rita (Julianne Trevisol), Patrícia (Thaís Fersoza) e Francisco (Guilherme Berenguer) - Foto: Divulgação

Patrícia (Thaís Fersoza) descobriu que estava grávida de Francisco (Guilherme Berenguer) na primeira semana de Vidas em Jogo (a novela estreou em 3 de maio de 2011). Desde então ela já foi sequestrada umas duas vezes, virou refém dos irmãos bandidos de Severino (Paulo César Grande), levou não sei quantos tapas na cara da mãe, Regina (Beth Goulart), descobriu que o bebê terá síndrome de Down, perdeu o amado para Rita (Julianne Trevilsol)… E nada dessa criança nascer. Nesse meio tempo, Cleber (Sandro Rocha) levou um tiro na cabeça e ficou não sei quantas semanas internado; Belmiro (Ricardo Petráglia), Hermê (Bia Montez), Betão (André Ramiro) e Ivan (Silvio Guindane) foram assassinados; Augusta (Denise Del Vecchio) assumiu que é homem; o povo da loteria já gastou boa parte do prêmio e Francisco reformou a mansão onde mora e conseguiu até encontrar os irmãos perdidos. Mas, apesar de tantos acontecimentos na história, o tempo realmente não passa em Vidas em Jogo.
Sei que licença poética existe para que alguns absurdos sejam perdoados em função de um melhor andamento da trama. Mas tudo tem limite. Não há justificativa para que a autora Cristianne Fridman não faça Patrícia parir logo esse bendito bebê e definir o tempo em que se passa seu enredo. Parece que estão tentando me fazer de trouxa e não gosto nada dessa sensação. Parta da culpa desse problema é péssima mania da Rede Record de esticar suas novelas até que não reste mais nada do fio condutor. Foi assim com Riberão do Tempo, que começou bem, só que foi alongada além do necessário, resultando numa chatice sem fim. Infelizmente esse é o risco que Vidas em Jogo corre, o que é uma pena porque  era uma novela que eu acompanhava diariamente, com imenso prazer, e hoje assisto a apenas a um ou outro capítulo. Na boa: me cansei dessa enrolação. No meio de uma barriga enorme que surgiu até mesmo o fofíssimo cãozinho Zé (Myllow), um dos melhores personagens da trama, ficou sem ter o que fazer.  E hoje se limita a um ou outro latido sem expressão.

senhora do destino

Do Carmo (Susana Vieira), Lindalva (Carolina Dieckmann) e Nazaré (Renata Sorrah) - Foto: Divulgação

Essa questão temporal mal definida me irrita não é de hoje. Senhora do Destino (2004) está na lista das minhas novelas favoritas, mas nunca engoli o fato de Aguinaldo Silva ter definido especificamente o início de sua trama para 13 de dezembro de 1968, o dia da decretação do Ato Institucional Número Cinco (o AI-5) e dar um salto de 20 anos (pelo menos era durante esse tempo em que Do Carmo, vivida por Susana Vieira, berrava que procurava a filha Lindalva).  Fazendo a conta, a trama deveria se passar em 1988, mas, numa cena, os personagens assistiam a Felicidade (1991). Espera! Então a segunda parte se situava nos anos 1990? Só que, para piorar, os figurinos, telefones celulares, computadores e automóveis eram os mais modernos possíveis. Ou seja: na verdade, Senhora do Destino se passava nos tempos atuais (2004), quando Lindalva deveria ter 36 anos. Então ela não foi roubada recém nascida e nem Do Carmo caçava a filha há 20 anos… Mas então ela jamais poderia ter sido interpretada por Carolina Dieckmann!!!  Nossa quanto “então” nessa confusão sem fim. Era um samba do autor doido, mas que, ao grande público, passou despercebido. Mas, para mim, isso tirou a credibilidade que uma produção tão boa como Senhora do Destino deveria ter tido.

viver a vida

Manuela (Marjorie Estiano), Rodrigo ( Rafael Cardoso) e Ana (Fernanda Vasconcellos) -Foto: Divulgação

A mesma situação aconteceu recentemente na troca de fases de A Vida da Gente. A brilhante autora, Lícia Manzo não conseguiu explicar como Thiago (Kaic Crescente), que era pelo menos um ano mais novo do que Júlia (Jesuela Moro), conseguiu ficar mais velho que a sobrinha. Enquanto Júlia é uma meninha de… digamos 4 aninhos, Thiago tem no mínimo uns 7 e já está alfabetizado. Sem falar que até Júlia completar dois anos, Rodrigo (Rafael Cardoso) ainda não havia entrado na faculdade de Arquitetura, muito menos Marcos (Ângelo Antônio) na de Turismo. Só que, dois anos depois, eles já estavam formados. Realmente isso é uma gota d´água de poluição num oceano de beleza e emoção que é A Vida da Gente. Mas, como já disse, não suporto ficar com a sensação de que estão subestimando minha inteligência e que qualquer coisa que jogarem no ar irei digerir sem reclamar. Não é assim que a banda toca, ou que, pelo menos, deveria tocar. Eu reclamo sim senhor, porque acho que, no fundo, essa “licença temporal” não passa de preguiça, seja do autor de elaborar melhor sua trama e do produtor de elenco de selecionar os atores adequados para a faixa etária dos personagens. E também do diretor, que deveria ser mais exigente com esses pequenos detalhes, afinal, como diz o ditado: são nos menores fracos que estão os melhores perfumes e os piores venenos.

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