Quem é a mãe de Vitória, em Fina Estampa? Bia (Monique Alfradique), que doou os óvulos para a gestação, ou Esther (Júlia Lemmertz), que carregou a nenê durante nove meses em seu ventre? Em A Vida da Gente, Manu (Marjorie Estiano) jogou na cara de Ana (Fernanda Vasconcellos) que ela usa as pessoas a seu bel prazer e foi acusada de ter roubado a vida da irmã enquanto ela esteve em coma. Quem está certa? Alguém está errada? Esses questionamentos polêmicos e dramáticos tomaram conta das duas novelas e também de nossas vidas. Hoje é praticamente impossível não cruzar com alguém que não tenha um ódio mortal de Manuela, por achar que a moça não poderia de jeito nenhum ter casado com o amado da maninha, muito menos permitir que a pequena Júlia (Jesuela Moro) a chame de mãe. Mas também encontro pessoas revoltadas com a indecisão de Ana, principalmente, depois que a ex-tenista fez gato e sapato de Lúcio (Thiago Lacerda).
Eu confesso que fico bem dividido entre as duas e acho que ambas estão certas em suas dores, mágoas e ressentimentos. Manu sempre foi a rejeitada e Ana a favorita da mãe, Eva (Ana Beatriz Nogueira). E a caçula se acostumou com essa situação de ser a privilegiada, mesmo não assumindo que gostava de receber tratamento especial de todos à sua volta. Mas o pior mesmo foi Ana ter passado por cima dos sentimentos da irmã, que fez de tudo para ela confessar que ainda amava Rodrigo (Rafael Cardoso), e ser flagrada aos beijos com o rapaz. É o tipo de traição que realmente destroça uma alma. E não é qualquer um que conseguiria perdoar. Eu talvez não tivesse essa evolução espiritual, mas acho que Manu tem. E ela já deveria ter superado e perdoado a irmã que tanto ama.
Apesar da minha ansiedade de ver as protagonistas da trama das 18h da Globo logo de bem, não tenho como negar que Lícia Manzo está sendo magistral na construção de sua trama. Depois de tantas palavras não ditas, o que de fato faz a manutenção das mágoas, Ana e Manu vomitaram tudo o que queriam (e também o que não desejam) dizer uma a outra. Dona Iná (Nicette Bruno) teve razão quando afirmou para a neta mais velha que agora as duas talvez consigam ensaiar uma reconciliação, já que conseguiram botar pra fora tudo o que as angustiava. E nada melhor que o tempo para guiar o caminho das duas. Sábia dona Iná!
Essa cena do acerto de contas entre Ana e Manu foi uma das mais fortes e bonitas que já vi na TV. O texto ia fundo no coração da gente e cortava feito navalha afiada. As atrizes se entregaram de corpo e alma ao embate, com Fernanda sempre intensa e Marjorie mais uma vez contida e perfeita. Cada uma no seu estilo de interpretação brilhou intensamente e brindou o público com uma explosão de talento tão raro na nossa telinha. Pena que A Vida da Gente está acabando. Vou sentir muita falta…
Já no que se refere à Fina Estampa, talvez a ciência consiga (mais do que a decisão de um juiz) dizer quem é a mãe de Vitória. Será? É sabido que a menina tem as características genéticas de Bia, mas eu me pergunto: e como fica o fato de Vitória ter passado meses ligada à Esther por um cordão umbilical? Nenhum material genético da “mãe canguru” se misturou ao feto? Sangue, células, energia, que seja, nada de Esther entrou no DNA da neném? Não acredito…
E me questiono mais ainda: ser mãe está mesmo tão vinculado assim a quem traz a criança ao mundo, já que em A Vida da Gente, por exemplo, Suzana (Daniela Escobar) é uma mãe espetacular para sua filha adotiva, Alice (Sthefany Brito). Muito melhor do que as mães naturais, Vitória (Gisele Fróes), Eva (Ana Beatriz Nogueira) e Cris (Regiane Alves), jamais serão para seus herdeiros. O tema realmente é polêmico e sou partidário de uma conciliação entre as duas mães, como aconteceu no final de Barriga de Aluguel, brilhante trama de Glória Perez que está sendo reprisada no Canal Viva. Mas independente do lado filosófico, ético, espiritual ou moral do caso, esse é um núcleo que vem se destacando em Fina Estampa de forma muito positiva. A novela de Aguinaldo Silva tem muitas qualidades, mas grande parte de suas tramas virou um festival de caricaturas, em que nada ou ninguém parece ser de verdade. Mas o drama de Bia e Esther é crível e as duas atrizes conseguem fazer com que a gente se envolva de corpo e alma em suas dores.
Bem mais experiente, Júlia dá show todo dia. Mas isso nem é novidade, já que ela é uma de nossas damas da interpretação. E Monique é uma grata surpresa. Ela sempre foi regular, mas pegou um papel complicado e vem arrasando. O choque que Bia recebeu, ao descobrir que existe uma criança fruto da combinação genética dela com o grande amor de sua vida, foi tão forte que a arquiteta surtou. E acho compreensível que isso tire a pessoa do prumo e a faça cometer loucuras. Monique conseguiu segurar os excessos da personagem e vem se saindo muito bem, principalmente, nas cenas com a ótima Ana Rosa, ao demonstrar total desconforto com a tentativa de Celina em usá-la para destruir Danielle (Renata Sorrah). Fica óbvio que a moça não quer a desgraça de ninguém, apenas o direito de criar sua filha. Belo trabalho, Monique.
É muito bom ver em nossa telinha temas tão difíceis sendo tratados de forma madura, consciente e crível. Estamos constatando que não existe ninguém 100% certo ou errado e que todos nós somos apenas seres humanos tentando lidar da melhor (ou pior) maneira possível com os atropelos da vida. Mas afinal… Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?






























