Quando a tour 360 Graus, do U2, pousar no Brasil, em abril, algumas mudanças serão notadas em relação aos primeiros shows na Europa, em 2009.
Apesar de ter sido um sucesso de crítica e ter vendido 5 milhões de cópias, o disco No Line on The Horizon não gerou grandes hits e isso frustrou a banda, que trabalha atualmente com o hypado produtor Danger Mouse para mudar o cenário.
A primeira perna da turnê, antes da cirurgia de Bono, era toda centrada no álbum. Nada menos que sete faixas de No Line On The Horizon eram tocadas. Para se ter uma ideia, o início era formado por “Breathe”, “No Line On The Horizon”, “Magnificent” e “Get on Your Boots”. A confiança na qualidade do disco era alta e a intenção era repetir a ousadia da Zoo TV, os shows que promoveram a obra-prima do U2, Achtung Baby, há 20 anos.
O conceito não deixava dúvidas. A Garra, apelido dado para o palco que possibilita a visão de todo o estádio, é plantada como um foguete quase no meio de campo do estádio. “Space Oddity”, de David Bowie, dá o pontapé na suposta viagem espacial, que fica completa com um link com a Estação Internacional na órbita terrestre no meio do show.
A ideia pode parecer meio grandiosa demais para funcionar, mas é exatamente o contrário. O fã pode escolher a experiência que deseja ter. Tá na pilha de ficar na frente, embaixo da “Garra”, chegue bem cedo (em Dublin, que foi bem organizado, apareci entre 14h e 16h e fiquei na área reservada nas três noites), porque não existem as malditas pistas VIPS (o U2 exige no contrato que os ingressos mais baratos sejam os melhores do estádio) ou sorteios malucos.
Você prefere ver o show na paz, longe? Não se preocupe, o telão circular que expande e encolhe durante toda a apresentação é de uma nitidez impressionante, e a banda tem vários escapes para se aproximar da platéia. Além disso, o palco é uma atração a parte.
Mas como isso chegará ao Brasil?
Como já falei, com algumas mudanças.
A presença de No Line On The Horizon foi reduzida para três músicas (“Magnificent”, “Get On Your Boots” e “Moment of Surrender”), mostrando uma certa insegurança da banda, que não pode arriscar um lugar no estádio depois da pausa para recuperação do vocalista, que causou o cancelamento da turnê americana, no meio do ano.
O dilema está construído.
Claramente você pode notar que grandes músicas como “With Or Without You” e “One” são tocadas de maneira automática. “Sunday Bloody Sunday”, que a banda se recusava a tocar durante boa parte da Zoo TV está no set list apenas como figurante.
Ali, no meio dos fãs, notei que as músicas do disco novo eram bem recebidas – apesar da grande maioria não conhecê-las. A energia era incrível, apesar de sempre ter achado um erro abrir com “Breathe” e terem deixado “Stand Up Comedy” de fora. No show do Coldplay que fui em Paris, ano passado, por exemplo, “Magnificent” abria a apresentação e todo o estádio cantava junto. Em tempo de crise global, a banda U2 precisou abrir espaço para a instituição U2. Outro exemplo? “The Unforgettable Fire”, clássico que a banda não tocava há 15 anos e combinava bem com a turnê, foi retirada do set list. O karaokê gigante de “Unknown Caller”? Adeus, foi extinto. Gosto mais do antigo set list, mais ousado.
O lado bom para o brasileiro é que o repertório atual brinca com duas coisas:
1) Músicas do disco All That You Can’t Leave Behind, que gerou a tour Elevation, mas passou longe daqui. Significa que o fã do Brasil vai ouvir “Walk On” pela primeira vez (não me venham falar do pocket show, eu estava lá) e torcer para “In a Little While” entrar no set antes do link espacial – algo recorrente nos últimos shows.
2) Raridades. Na Europa, o U2 decidiu resgatar o (lindo) lado B “Mercy” e transformou a música no carro chefe do EP limitado Wide Awake in Europe, lançado no Record Store Day, na sexta-feira (26). Além disso, tocou novas músicas: “Return of the Stingray Guitar” (instrumental que abre os shows no lugar de “Soon”, música disponível apenas na edição de luxo de “No Line…”), “Glastonbury” (canção que a banda compôs para tocar no festival de Glastonbur, mas que precisou ser adiada por causa da operação de Bono) e a balada “North Star”. Em Portugal, estrearam “The Boy Falls From The Sky”, do musical da Broadway do Homem-Aranha, escrito por Bono e The Edge. Na Oceania, resgataram a obscura “Scarlet”, do disco October, e tocaram “One Tree Hill” – mas essa última é uma tradição da Nova Zelândia. No bis, as cidades que abrigam duas noites de apresentação ganham o revezamento de “Hold Me Thrill Me Kiss Me Kill Me”, da trilha sonora de Batman Eternamente, e “Ultraviolet (Light My Way)”, uma das melhores músicas do Achtung Baby.
Obviamente, a espinha dorsal dos shows é a mesma, principalmente por causa do trabalho visual. É mais ou menos como nos shows de Paul McCartney: no máximo, umas quatro mudanças – se dermos sorte. Atualmente, depois da instrumental inédita, a apresentação segue mais ou menos assim:
“Beautiful Day”/”New Year’s Day ou I Will Follow” (que mal apareciam na primeira pena da tour)/ “Get On Your Boots”/ “Magnificent”/ “Mysterious Ways” ou “Elevation”/”Until the End of The World”/”I Still Haven’t Found What I’m Looking For”/ “Momento surpresinha 1 e (ou) 2: “Angel of Harlem, Desire, Mercy, North Star, Electrical Storm, Bad ou Glastonbury”/”Pride (In The Name of Love)”/”In a Little While”/”Miss Sarajevo”/”City of Bliding Lights”/”Vertigo”/”I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight” (remix)/”Sunday Bloody Sunday”/ “MLK” ou “Scarlet” (mas aposto na primeira)/”Walk On”/”One”/”Where The Streets Have No Name”/” Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” ou “Ultraviolet (Light My Way)”/”With or Without You/”Moment of Surrender”.
Se eu pudesse escolher duas surpresas, pediria por “So Cruel”, tocada apenas três vezes pela banda, já que 2011 é aniversário de 20 anos do Achtung Baby, e “White As Snow”, balada lindíssima do último disco, ensaiada em Dublin, mas nunca tocada ao vivo. De quebra, que tal The Edge tocando “Where The Streets Have No Name” com o Muse?
Outra coisa: sem desespero com os ingressos. A capacidade do estádio aumenta em 15% com o palco da 360 Graus. Não precisa de correria, porque, não há a famigerada área VIP – apenas a RED Zone, que fica ao lado da garra, mas que é um lance beneficente.
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