Regina Duarte

''Ser avó é muito mais fácil''

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Por Clarice Muniz

 

Namoradinha do Brasil, mãe de três filhos, atriz consagrada... São incontáveis os papéis desempenhados por Regina Duarte, 62 anos, que acaba de comemorar mais um sucesso: a extrovertida Waldete de Três Irmãs. Agora, com o fim da novela, ela pode se dedicar inteiramente a um papel muito especial: o de avó. ''É um deslumbramento, uma redescoberta de vida, um novo olhar sobre tudo'', sorri com os olhos a atriz, com foco nos netos, Manuela, 2, filha de Gabriela, 35, com o fotógrafo Jairo Goldflus, 39, e Theo, 3 meses, filho de André Duarte, 37, empresário da área de gastronomia, com a antiquária Bettina Raviolli, 32. Mas Regina na versão avó tranquila, surgiu a partir do susto de 2008, quando foi internada com risco de morte. ''Aprendi a fazer uma agenda mais leve. Hoje, não coloco os interesses exteriores acima de mim''. Acompanhe o papo com a atriz na cobertura do filho caçula, João Ricardo, 26, na Barra da Tijuca.

Como é sua relação com a beleza e a vaidade?
Minha preocupação maior é estar saudável, o que significa dormir bem, mas eu não consigo dormir bem se não tiver feito exercício. Eu não quero ter acidez estomacal, prisão de ventre, dor muscular pelo corpo... Acho que, se a máquina não estiver em atividade, emperra. Também regro um pouco a alimentação porque eu tenho certa tendência a engordar. Eu adoro doce... Se eu não gostasse estaria tudo resolvido (risos). Consegui eliminar refrigerante da minha vida há 20 anos e só bebo café ao acordar. O copo de vinho, que dizem fazer bem, eu continuo bebendo três vezes por semana, mas apenas um cálice.

Você faz alguma dieta para manter a forma?
Eu tive uma septicemia (infecção generalizada) seriíssima, fiquei três dias e três noites na UTI e 20 dias internada. Nesse período fiquei à base do soro. Eu não comi durante quase 20 dias. Quando eu me recuperei, tive de voltar bem devagar e comendo pouquinho, pastoso primeiro. Reaprendi algo que hoje me parece óbvio, que é a dieta das pequenas porções. Eu não deixo de comer nada, só que eu como pouquinho. É preciso fazer um esforço para não repetir. Com o pão eu sou mais radical. Se eu ganho 1 quilo, eu tolero, mas se eu ganho 2, corto o pão. Só não abro mão de um doce uma vez ao dia.

No período em que esteve internada, sabendo da gravidade da doença, o que passava pela sua cabeça?
Eu não tinha muita consciência disso. Foi uma experiência transformadora mesmo. Depois que me recuperei é que tomei consciência do que eu tinha passado. Há pouco tempo uma moça faleceu por causa disso, eu tive várias notícias sobre pessoas que tiveram o mesmo problema. Na hora você enfrenta, não tem o que fazer. Quando passa é que fazemos um balanço de pequenas besteiras e pensa: ''Gente, a qualquer momento eu posso ir embora mesmo!'' Sabemos disso, mas quando chegamos numa situação dessas é que tomamos consciência maior da precariedade da vida. Não podemos perder tempo com bobagens, detalhes e mesquinharias, a vida é maior.

Como foi essa experiência transformadora?
Antes eu tinha uma tendência a ter o controle de tudo o que acontecia comigo, com a casa, com as relações. Eu me preocupava com tudo e ficava arquitetando coisas para fazer, eram muitas listas. Mas percebi que a qualquer momento essa lista se desmonta. Fiquei quase um mês internada e não mudou nada. Tinha uma série de coisas agendadas. Tudo o que deixei de fazer naquele mês não foi feito. E tudo continuou igual! Estou mais flexível em relação a esse rigor que me impunha, eu me cobro menos. Eu não conseguia passar uma tarde sem fazer nada. Pensava: ''Como assim? Hoje eu não assisti a um vídeo, não li um livro, não liguei para a pessoa que devia ter ligado, não resolvi aquele assunto...'' Não me perdoava. Claro que temos de honrar os compromissos, mas aprendi a fazer uma agenda mais leve a cada dia. Aprendi a dizer ''não'' tranquilamente para as pessoas. Tenho um pouco mais de respeito pela minha pessoa, não coloco o mundo nem os interesses exteriores acima de mim. Se eu não estiver bem e feliz, não adianta que eu não vou poder me doar. Saí do hospital e percebi que nada desmoronou ou quebrou.

Durante esse período, onde encontrou forças para se recuperar?
Eu rezei muito, fui criada na religião e tem uma força aí que eu preciso. Não sei dormir sem rezar. Aprendi desde pequena a agradecer muito, pedir também, mas principalmente a agradecer todos os dias por tudo o que vivi e conquistei. Eu não tenho nenhum problema com a minha morte, isso é uma coisa que vai acontecer quando tiver de acontecer. Eu pensava: ''Se é para ir embora, apaga logo (risos)!'' A morte dos outros, das pessoas que eu amo e admiro, me assusta muito mais.

Com o fim das gravações, você vai voltar para São Paulo?
Pretendo ir mais vezes a São Paulo, mas quero ficar mais tempo no Rio. Eu sinto que meus encontros com a família podem até melhorar de qualidade, porque vira um evento, marcamos um almoço juntos, tudo torna-se mais especial.

O que mudou em sua vida após se tornar avó? É mais simples do que ser mãe?
Não tenho palavras para definir. Ser avó é um deslumbramento, uma redescoberta da vida, um novo olhar sobre tudo, porque você precisa voltar a enxergar o mundo com o olhar de uma criança. Ser avó é muito mais fácil!

Você orienta Gabriela de alguma forma na criação de Manuela?
Gabriela cria a Manu como ela quer, claro. Mas eu também nunca deixo de falar o que eu acho das coisas, de dar a minha opinião, porque não conseguiria ficar sossegada vendo uma coisa que Gabi possa não estar percebendo. Eu olho para mim lá atrás e desejaria que alguém me ajudasse a ter um olhar de fora. Quando você está dentro da situação com a criança, às vezes é tão bom quando tem alguém de fora que lhe diga as coisas. Acho que só quem tem intimidade faz uma crítica construtiva ou uma alerta.

Acha que essa personagem em Três Irmãs foi especial?
Essa novela será um marco na minha carreira. Recebi um retorno bem positivo e fico feliz de saber que levei uma coisa divertida para o público. Não adianta dizer que tenho 42 anos de TV e que não fico insegura, porque cada trabalho é único, é um ponto de interrogação. O que já foi conquistado fica no arquivo da memória. Percebi que esses jovens atores são muito estudiosos, pois o mercado está muito competitivo. Acabou essa história de divas, aquela coisa meio blasé no trabalho.

Existe receita para um casamento duradouro?
Eu gostaria de fugir das ''receitas'', mas vou arriscar: acho que sim! A vontade de ficar junto com o parceiro seria o ingrediente básico. Quando essa vontade acaba, o casal fica vulnerável. Passa a encarar as dificuldades que toda relação enfrenta sem a paciência, sem a convicção e a generosidade necessárias.

Já sofreu muito por amor?
Não. O sofrimento aceitável no amor é um truque romântico, um tipo de tempero, só tem sentido se for em doses homeopáticas. Amor não combina com sofrimento, isso é coisa de masoquista. Discutir, negociar, até brigar, tudo isso faz parte de uma relação amorosa saudável, são coisas que fortalecem. Mas, quando o motivo de sofrimento na relação é a incompatibilidade séria com o parceiro, aí, não dá.

Uma das coisas que você comentou certa vez foi que o maior tabu que superou na vida foi o da sexualidade. Por quê?
Minha família era excessivamente religiosa. Sexo, no meu tempo, era tabu. Aos 17 fiquei um mês de castigo porque assisti às escondidas ao filme O Belo Antonio (do italiano Mauro Bolognini, com Marcello Mastroianni e Claudia Cardinale, de 1960). O mundo mudou muito depois disso. Intuitivamente sempre senti que era importante cultivar uma boa sexualidade, acho mesmo que faz parte dos hábitos saudáveis de quem quer qualidade de vida. O importante é a dosagem, ou seja, na medida certa, com a pessoa certa é dos deuses...

Você teme a velhice?
A velhice na nossa geração é coisa adiada cada vez mais. A medicina empurrou a velhice lá para depois dos 80! Sou preocupada é com a doença. Por isso cultuo meus rituais de caminhada aeróbica, alongamento, muito líquido, pequenas refeições a cada três horas, para ficar me sentindo bem, lépida e faceira.


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