São cinco iPods de 160 gigabytes abarrotados de música. Mas quando viajam, Ed Motta, 38 anos, e a desenhista Edna Lopes, 47, usam apenas um aparelho com adaptador para plugar dois fones ao mesmo tempo. O que parece um pequeno detalhe representa bem a vida do casal. Tão diferentes e heterogêneos quanto água e óleo (ela tem gestos leves, fala mansa e postura discreta; já ele, além do conhecido vozeirão, gosta de se fazer notar e é dono de opiniões polêmicas), Ed e Edna desafiam a lei da química e se 'misturam' há 20 anos. E com a mesma harmonia que uma fatia de lardo di colonnata (o mais nobre dos bacons) repousada sobre torrada pode ser acompanhada por um vinho branco da Borgonha, iguarias que o gourmet Ed Motta mais aprecia.

Ambiente para mulher, sim!
A primeira impressão de quem entra no apartamento do casal, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, é a de que Ed e suas coleções não deixam espaço para mais ninguém. São mais de 30 mil discos de vinil, um piano de cauda Yamaha no meio da sala, uma estante abarrotada de DVDs, garrafas de vinho pelos cantos, bonequinhos da série Star Wars e até mesmo uma espada igual a do vilão da série, Darth Vader. Ou melhor: um ''sabre de luz''!

Impossível para uma mulher viver nesse ambiente? Não para Edna. Ela divide com Ed todas as suas paixões (e com a mesma intensidade) e ainda consegue incluir hábitos e gostos na vida do casal, como os móveis e luminárias da década de 50. Tudo também absorvido por Ed como se sempre tivesse feito parte de sua vida.

Filhos: nem pensar!
As grandes decisões da vida do casal também sempre foram tomadas de comum acordo. Inclusive a, talvez, maior delas: jamais ter filhos. ''Isso foi uma maravilha proposta por Edna. É uma mulher santa! Eu aceitei na hora. Não daria para encaixar uma criança na minha vida. Eu não iria nem respeitar os gostos dela, nem deixá-la desenvolver suas aptidões. Ia logo dizer que tem de aprender piano à força (risos). E imagina chegar em casa e ter um adolescente ouvindo Nirvana? Ou não poder tocar piano porque minha filha vai receber o namorado na sala? Estou fora! Pra mim não ia dar mesmo'', confessa o músico, em uma afirmação que pode mesmo ser definitiva.

Uma relação, uma incógnita
Edna e Ed se conheceram nos bastidores de um show dele. Já fã de seu trabalho, ela chegou a tentar fazer uma entrevista com o músico para um trabalho de faculdade, mas ouviu da então empresária de Ed que ele odiava dar entrevistas. ''Imagine! Fiquei com a impressão que ele fosse antipático, mas é divertidíssimo!'', defende Edna. Meses depois, um amigo em comum a levou ao camarim dele, que passou a noite justamente fazendo Edna rir. Desde então estão juntos. ''O que mantém nossa relação é uma incógnita. Acho que foi sorte mesmo, mas lógico que também tem trabalho nisso. Você tem de fazer de tudo para que dê certo. E nos respeitamos muito. Gosto de ficar no meu canto, fazendo minhas coisas, e ele também. Somos muito caseiros'', explica Edna. Desenhista de quadrinhos, ela sempre cuidou da parte visual dos discos do marido. No último, no entanto, o CD Piquenique, Edna se arriscou mais. Pela primeira vez eles compuseram todas as músicas do disco juntos. ''Fizemos tudo em menos de dez dias. E adorei a experiência'', contou ela, que sempre acompanha Ed em suas turnês. ''Ficou incrível. Para quem gosta destes jargões, é uma volta ao pop'', brinca Ed.

Ai, esse Rio de Janeiro...
Mas nem tudo são flores na vida do casal. A maior discórdia entre eles, no entanto, é a velha rixa São Paulo x Rio de Janeiro. Paulista, Edna deixou sua casa para viver com o carioca Ed e até hoje ele não se conforma. ''Isso aqui tá um Guarujá falido. Para onde você vai está todo mundo sem grana. Em São Paulo está todo mundo ricão, com gelzão no cabelo (risos)'', diz ele, imitando o sotaque paulista. ''Lá você vai a uma loja de azeites e o cara explica que o Moulin des Pénitents tem uma nota esmaltada e um frutado no fim, perfeito para peixes. No Rio o cara vem e fala: 'E aí, Ed! Guarda meu cartão porque eu também faço segurança. Já trabalhei na Globo, já fui segurança da Xuxa...' Aí você pergunta se tem o Moulin des Pénitents e o cara te abraça e diz: 'Vou te contar, mas só porque sou teu fã. Bicho, isso aí é tudo igual. Leva esse que fica bom com carne, peixe, feijão...' Feijão?! É claro que a loja do Rio já fechou, né (risos)?'', comenta Ed sem nenhum medo de incomodar os cariocas. ''E daí? Carioca não lê. Também não vê filme e não ouve música. É só praia e sexo. A vida aqui é uma coisa indígena. Ainda convenço Edna que eu não sou índio'', se diverte, às gargalhadas.

''Às vezes ela reclama porque gastei muito em um vinho ou discos, mas só diz que eu sou maluco. Nunca brigamos por causa desses interesses porque são mútuos'', conta Ed, que mantém tudo sob rígida organização. Um vinil, por exemplo, só entra na estante depois de lavagem e troca de plástico. CDs? São apenas 3 mil. ''Jogo as músicas para o iPod e depois é lixo!'', diz, quase vintage, não fosse o aparelhinho de MP3 da Apple.

Mil e uma opiniões...
Como comer bem
''Misturo tudo como me convém cada facção comportamental. Para mim o ideal é ter opiniões de esquerda, atuar como de centro e comer como de direita. Porque o cara que é de esquerda pode até ganhar muita grana, mas vai continuar achando que o cabrito do Nova Capela, na Lapa do Rio, é o melhor. Eu gosto de comer em restaurante que, quando eu entro, o cara já pensa: “O que esse negão tá fazendo aqui? É um assalto?”. Esses são os melhores (risos). Sempre digo que restaurante bom é onde sou maltratado, pois é nesses que a comida é muuuito boa.''

Meu mundo e nada mais
''Meus únicos interesses são música, cinema, quadrinhos e gastronomia. Edna está de prova. Se começam a falar de outra coisa eu até desligo, fico com aquele olhar vazio. Pode até ser ela. Negozinho vem falar de Revolução Francesa e eu só penso que Danton tomava tinto Chambertin. O mundo para mim só existe da Segunda Guerra pra cá. Porque, se Hollywood não filmou, não me interessa. É claro que existem filmes como Troia, mas tranqueira tem em todo lugar.''

Gordo, mas não é opção
''Tenho uma desvantagem na vida que é ser gordo. É uma doença, a obesidade. Não é uma opção. Não faço dieta, mas não gosto de ser gordo. E tem essa onda agora de gordinho dizer que gosta de ser assim. Este mundo tá chato demais! As pessoas estão se aceitando, isso é horrível! É coisa desses filmes tipo Cidade de Deus. Antigamente eu sonhava ser o Tarcísio Meira. Todo mundo queria ser da novela das 8. Agora dizem que ser da favela é que é glamour!''

Axé não é gênero
''Na minha coleção de vinil tem todos os gêneros musicais. Axé? Isso não é gênero, é problema (risos). Tenho várias coisas da Bahia, mas não axé. Este ano fui ao Sambódromo porque Edna queria muito, mas também detesto samba-enredo. Só escuto música feita onde a energia local é estabilizada. Não ouço música da fome. Nunca iria sozinho para o Sambódromo ficar vendo passar carro dourado/prateado, azul/prateado, magenta/prateado... Parece que está tudo sempre caindo. Meu Deus!''

Sorvete, só de chef
''Sou gordo, mas meu colesterol é bonzão. Deve ser por causa dos vinhos (risos). E não como nada industrializado. Nenhum biscoito, bala, refrigerante... Sorvete só feito por um chef pâtissier. O cara acorda às 6 horas para bater o leite, fresquinho. Faz isso diariamente. Claro que o gosto é outro. Aqui no Rio negozinho compra um monte de alface quebrada, joga um creme de leite, gratina e diz que tá ótimo. Este deve ser o lugar que mais se consome creme de leite! Tá gratinado ou virou mousse, as pessoas acham uma delícia!''

Graduado “snob”
“Aprendi tudo o que sei lendo, observando e perguntando. Larguei a escola na 7ª série. Nunca me adaptei a ninguém me enquadrando. Nelson Rodrigues era um gênio: toda unanimidade é burra mesmo. Claro que, morando no Brasil, tenho de falar que não sou esnobe. Lá fora ser 'snob' é graduação, é título. Mas não posso negar. Nasci na Tijuca. Devo ter milhares de defeitos, desvios de caráter, resquício dessa formação. Agora é que meu pai me mata (risos)!''