Como descreve um dos mais famosos slogans da publicidade mundial de todos os tempos, ''não tem preço'' passar um dia com Washington Olivetto, 60 anos. Apesar do rosto sempre sério nas fotos, não se engane. O publicitário, de quem eu já era fã por suas emocionantes e inesquecíveis campanhas – como a do Garoto Bombril e a do primeiro sutiã – é um ''cara'' divertidíssimo no tête-à-tête. Tanto que é capaz de rir até de si mesmo. ''Tem uma coisa que faz muito bem para meu trabalho e minha pessoa. Eu exijo que me levem a sério, mas eu mesmo não me levo a sério. Sou muito crítico comigo e tenho a capacidade de rir de mim mesmo. Todo dia alguém faz alguma besteira e algum dia sou eu'', diverte-se, sempre criativo.

 

Tive a primeira oportunidade de estar com Olivetto em 2005, para uma entrevista em seu apartamento carioca, em plena quarta-feira de cinzas. Ele é do tipo que não desliga nem na folga. Qualquer um diria que é um típico workaholic, mas ele odeia anglicismos e prefere se descrever como alguém que tem obsessão por trabalhar. Olivetto é assim, sempre cuidadoso com as palavras. Seu amigo Juca Kfouri uma vez o entrevistou e disse que ele já fala ''editado''. É verdade. Deve ser por isso que, apesar de falar muito, jamais cansa ouvi-lo. Naquele primeiro encontro, ele estava com a mulher, Patrícia Viotti, 51, e os gêmeos, Theo e Antonia, 7. Nos reencontramos no ano passado. Olivetto havia sido nomeado cidadão carioca e fizemos um tour por seus ''points'' na cidade, entre eles a sede carioca de sua agência. Ele foi muito agradável, sem frescuras. Contou mil histórias, para meu deleite e do fotógrafo, e ainda nos convidou para uma cervejinha em sua casa no fim do trabalho.

 

Dessa vez, ele recebeu a repórter na sede paulista da WMcCann, onde é chairman e diretor de criação na ativa. Olivetto gosta tanto do que faz que trabalha até de graça. Seja em campanhas para a área social, como a que criou recentemente para o Hospital de Câncer de Barretos, como as criações que faz para amigos.''Eu tenho mania de fazer coisas para meus amigos. É gostoso deixar as pessoas felizes'', justifica ele, que inclusive criou o logo desta seção especialmente para mim. Tenho muito orgulho disso, sem modéstia. Como ele diz: ''Eu sou humilde, mas não modesto. Modéstia é falsidade''.

 

O publicitário, que largou a faculdade para começar a trabalhar aos 18 anos e de cara foi premiado em Cannes, não tem o menor pudor de reconhecer seu talento. ''Acho, sinceramente, que todo mundo ou a maioria das pessoas nasce pra fazer alguma coisa na vida. Não vou chamar de vocação. Mas são poucos que têm a sorte de descobrir qual é essa coisa. E por isso são poucos os bemsucedidos e felizes em seus trabalhos. Eu tive a sorte de descobrir para o que servia na vida muito cedo. Isso resolveu minha vida. E deixou minha autoestima sólida'', explica ele, que se considera cada vez melhor. ''Eu tenho consciência de que a gente melhora no dia a dia. Se você não para, melhora. Eu sou melhor profissional do que eu era ontem e devo ser pior do que serei amanhã. Busco cumprir minhas obrigações, que são vender o produto e construir marcas. Mas tenho a ambição de entrar para a cultura popular do Brasil. E tenho tido a sorte de fazer isso muitas vezes'', completa ele, que terá a vida retratada no cinema em filme dirigido por Fernando Meirelles, 56.

 


Olivetto é muito ativo. Diz que dorme no máximo cinco horas por dia – das 2h às 7h da manhã. Não gosta de usar elevadores, só a escada. E em sua agência são três andares e vive andando para todos os lados, mal para em sua sala, apenas quando tem reunião ou quer escrever sozinho. Tanto que, ao lado da mesa de cada funcionário de sua equipe de criação, fica uma cadeira vazia pronta para recebê-lo a qualquer momento. Ele está na ativa, mas ensina: ''Minha primeira função, como diretor de criação, é não competir jamais com a equipe''. A vaidade dele, portanto, tem limites muito bem delimitados .''Não posso ser idolatrado. Muitas vezes, eu pura e simplesmente aplaudo ideias. Outras vezes, eu melhoro ideias, que é outra função do diretor de criação. E, às vezes, crio ideias'', diz ele, sempre a favor da coautoria. ''O que disseminei sempre na minha vida é que é melhor ser coautor de muitas coisas brilhantes do que autor solitário de algo medíocre.''

 

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