Silvana Bianchi, 60 anos, é tranquila. Fala pausadamente, não eleva a voz. Simples - unhas sem esmalte, cabelos curtos, nenhuma maquiagem, a vaidade refletida apenas em pequenos brincos de brilhante -, afirma só ter um compromisso na vida: zelar pelos filhos da filha, Bruna Bianchi, que, há quase dois anos, morreu de hemorragia, no Rio, aos 34 anos, após dar à luz Chiara (que fará 2 anos no domingo, 22). Para acompanhar o crescimento dos netos, afirma, lutará até o fim. A menina mora com ela, os brinquedos espalhados indicam que a casa da avó é o seu pequeno reino. O menino, Sean, 10, o pai biológico, David Goldman, 44, levou para os Estados Unidos há oito meses, após longa batalha judicial.

Serena, Silvana analisa a situação recorrendo a documentos que, guardados numa caixa, dividem o espaço da sala com os brinquedos de Chiara. ''A mesma Convenção de Haia, que tirou Sean do Brasil, obriga o senhor Goldman a permitir visitas da família brasileira. Mas a Justiça americana ignora a Convenção e nos proíbe de vê-lo. Isso é um desrespeito ao menino, a mim e ao Brasil.''

O drama de Silvana - que já foi proprietária e chef do Quadrifoglio, um dos mais conhecidos restaurantes cariocas - começou na noite em que Chiara nasceu. Recordar a tragédia que desaguou na morte da filha traz lágrimas, logo controladas, aos olhos da mãe. ''Senti que amputaram uma parte de meu corpo.'' Após os primeiros dias de pesadelo, a constatação da impossibilidade de cuidar dos dois netos e de um restaurante. A casa, da qual tanto se orgulhava, foi vendida. Ela lamentou, mas as crianças a incentivavam a viver.

O mais próximo da normalidade
A avó paterna de Chiara, Ana Lúcia Lins e Silva, mudou-se para o apartamento ao lado, num condomínio no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. As duas, o pai de Chiara e padrasto de Sean, João Paulo Lins e Silva, 36, o avô, Raimundo, e o tio, Luca, 31, tentaram manter a vida o mais próximo possível da normalidade. Aluno da Escola Parque, frequentada por crianças da classe média alta, Sean também ia à praia, ao cinema, jogava futebol com os amigos, passava os fins de semana com os avós em Búzios ou com João Paulo, a quem tratava de ''pai'', em Angra dos Reis.

Mas a vida reservava novas dores para os Bianchi. Tão logo soube do falecimento de Bruna, o pai de Sean, que há quatro anos tentava na Justiça a guarda do menino, veio ao Brasil. Apoiada em documentos retirados da caixa, Silvana se defende das acusações que sofreu a partir daí. David Goldman garantiu que Bruna fugiu com o filho dos Estados Unidos. Silvana apresenta o documento assinado por ele, em 17 de março de 2004, permitindo o embarque da mulher e do filho. Goldman lamentou que os cartões enviados não foram entregues ao menino.

Silvana retira da caixa dezenas de cartões, com os envelopes abertos, e afirma que Sean os recebeu e leu todos. Goldman jurou que a família de Bruna impedia-o de visitar o filho. Silvana apresenta a troca de correspondência, datada de 2 de setembro de 2009 e realizada através de advogados, em que ela e o marido se oferecem para pagar a passagem e a hospedagem do pai de Sean para ele e o filho se encontrarem. Goldman afirmou que a família Bianchi não o deixava conversar com o filho. Silvana apresenta uma conta telefônica, de um só mês de 2006, com 116 ligações entre o telefone de sua casa e o de David Goldman.

Urgentemente, deveriam devolvê-lo
A história é sabida: virou um show de refletores e de interesses. Até Hillary Clinton, secretária de Estado americana, apelou para o Brasil devolver Sean ao pai. Assustada com a repercussão do caso, Silvana solicitou a interferência de um psiquiatra para o menino manifestar a sua vontade. Ao médico, Sean confessou a vontade de permanecer no Brasil, ''com a minha família e a minha irmã''. Entre acusações de parte a parte, chegou o momento em que, baseado na Convenção de Haia, da qual o Brasil e os Estados nidos são signatários, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, decidiu que o pequeno brasileiro, nascido em Nova Jersey, fora mesmo retirado de seu pai biológico.
Urgentemente, deveriam devolvê-lo. A decisão aconteceu em 22 de dezembro de 2009. A sentença estabeleceu que, até o meio-dia do dia 24, Sean deveria estar com o pai no consulado americano, no Rio de Janeiro.

Novamente, Silvana Bianchi controla as lágrimas teimosas. ''Ninguém imagina o quanto doeu ver o Sean sair de casa chorando, vomitando de medo e de nervosismo. Com apoio do governo, um brasileiro, cidadania que herdou da mãe, averbada por um cartório do Brasil, foi retirado do país, sem passaporte. Os passaportes de Sean, o brasileiro e o americano, foram sequestrados pela Polícia Federal. Por que, se tudo, como afirmam, aconteceu legalmente?''

A viagem, em avião particular, rendeu enorme audiência à rede de televisão NBC, que alugou o jatinho e conseguiu a exclusividade da história, uma tragédia transformada em show. Depois disso, ninguém, nem Silvana Bianchi, conseguiu receber notícias de Sean. Apenas quatro vezes, em inglês e seguindo um roteiro estabelecido por Goldman, a avó falou com o neto. ''Uma conversa burocrática, mas pela voz dele falando ‘alô’, senti-o triste.''

Presença dos avós brasileiros
Em março de 2010, a viagem realizada aos Estados Unidos para ver o menino terminou num tribunal de Nova Jersey, onde os dissabores não se resumiram apenas à negativa da visita. Ofendidos e humilhados pela advogada de Goldman, com a complacência muda do juiz, Silvana e o marido nem pelo telefone chegaram a contatá-lo. Apesar de o psicólogo americano, que cuida da adaptação de Sean, aconselhar enfaticamente a presença dos avós brasileiros. Agora, em 31 de agosto, o advogado Sérgio Tostes vai representar a família no Tribunal de Nova Jersey, quando a Justiça americana vai autorizar ou não a visita dos avós. ''Eu não viajarei antes de me permitirem encontrar Sean. Nos Estados Unidos, já me maltrataram o suficiente.''

Por ela, muita água ainda rolará debaixo da ponte. Sua decisão é, sempre, assegurar-se de que o neto se sinta feliz: ''Lá ou aqui, com o senhor Goldman ou conosco. Não importa onde ou com quem. Onde Sean afirmar querer morar, concordarei. É a vontade dele que importa. Eu preciso saber que Sean está bem na escola, de saúde, que recebe os cuidados necessários, é acarinhado e amado. Sou a avó, mãe da mãe que morreu. Tenho os meus direitos e eles serão respeitados. Até o último minuto da minha vida, lutarei por isso''.

Para tentar não enlouquecer - segundo Silvana, a pressão é tanta, tantos foram os acontecimentos dramáticos, que ela tem a impressão de viver uma ''metarrealidade'' -, sua rotina é simples: internet, conversas com advogados, visita aos amigos do condomínio - ''são maravilhosos'' -, compras para casa, raros fins de semana em Búzios. Há pouco, aceitou um convite da chef italiana Luiza Valazza e cozinhou durante dois dias num hotel da Praia de Copacabana. ''Foi bom recordar.''

Silvana Bianchi, uma leoa, transformou a sua vida numa luta pelo bem-estar dos filhos da filha que perdeu: ''As crianças, ela e eu somos um só coração. O meu não descansará enquanto não existir a certeza de que Sean é feliz e mora onde quer. Se Bruna já não pode protegê-lo, protejo-o em nome dela''.

Chef, geógrafa, historiadora, tradutora, ''mamma'' e ''nonna''

Silvana Bianchi é paulistana, filha de italianos. Sua formação em gastronomia não é acadêmica: aprendeu tudo com os pais, Dina e Silvano Bianchi. O casal preparava pessoalmente as massas servidas aos três filhos. Apesar de formada em geografia e tradutora de italiano, nunca se imaginou em outra profissão: adora cozinhar. Inaugurar o Quadrifoglio, um restaurante que, há 25 anos, apresentou aos cariocas a moderna cozinha da Itália, foi o destino anunciado. Orgulhosa de seus temperos, ela ainda se surpreende quando lembra a sua especialidade mais original: ''Papel comestível. Descobri o início da receita, à base de Aloe Vera, há cerca de seis anos, num encontro mundial de chefs, na Espanha''.

Após tantos sustos, a cozinha virou um paraíso perdido. Silvana desanimou das aventuras culinárias e só se arrisca a enfrentar o fogão quando viaja para Búzios e esquece, um pouco, o estresse do Rio de Janeiro. ''Lá, volto a servir meu peixe com ervas, minhas moquecas e doces. Sou gulosa, adoro doces.''

Fluente em italiano, ela resolveu estudar grego após ser avó. ''Estou no 5º ano primário, já falo e escrevo bem'', brinca. Hoje, devido às reviravoltas de sua vida, as aulas se resumem a duas horas semanais, via Skype: o professor mora em Atenas, mas o computador dela tem um teclado com o alfabeto necessário. Quando viaja à Grécia, o povo se espanta ao descobrir que a turista brasileira comunica-se com facilidade. ''Os gregos se emocionam, sempre ganho presentes. Um dia, passarei alguns meses lá para aprofundar os meus conhecimentos'', planeja.

Criada numa família unida e feliz, Silvana - quando Bruna tinha 9 anos e Luca, 6 -, morou em um prédio de três andares, que dividia apenas com os pais e os irmãos. Livre da preocupação de aborrecer os vizinhos e pretendendo alegrar os filhos e sobrinhos, comprou um filhote de leão, que lhe foi oferecido em Copacabana. O animal dormia em sua cama e virou a alegria da criançada. Mas, aos 9 meses, foi doado a amigos, donos de um sítio na Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais. A fera, já no tamanho de um bezerro, implicava com a matriarca do clã: ''Mamãe morria de medo e ele parecia saber. Quando a via, pulava em cima. Não tive outra opção a não ser dá-lo. Mas o leão é inesquecível''.

Casada há 40 anos com o discreto publicitário Raimundo Ribeiro, que prefere que a mulher fale em nome da família, Silvana é uma mulher de muitos talentos: cozinheira, geógrafa, tradutora, estudante de grego, leitora bissexta de livros de história. Mas sua maior qualidade, garante, é ser uma valente ''mamma'' e ''nonna''. Para defender os filhos e os netos enfrenta qualquer briga. Sem medo e sem nunca pensar em se render.