A própria Larissa Cunha brinca que toda mãe quer uma filha miss e que a dela não tem mais do que reclamar depois que se tornou, em outubro do ano passado, na Inglaterra, a primeira brasileira a receber a faixa de Miss Physique Universe. Quatro décadas antes, o desconhecido austríaco Arnold Schwarzenegger ganhava a mesma consagração da National Amateur BodyBuilders Association (Nabba), na categoria masculina. Hoje, depois de uma carreira de sucesso em Hollywood como um dos principais astros de filmes de ação e aventura, ele é o governador da Califórnia, Estados Unidos. Larissa até tem pinta de artista e um carisma que chama a atenção de adultos e crianças, homens e mulheres. Mas, longe da política, ela quer cuidar dos músculos para o resto da vida e empunhar a bandeira da feminilidade que a fez levar o prêmio maior da musculação.

Em um concurso como o de Miss Universo do fisioculturismo, as candidatas são convocadas de acordo com o currículo. Larissa já tinha um vice-campeonato mundial (2007), um campeonato sul-americano (2007), um tricampeonato brasileiro e um penta paranense, seu estado natal. ''Eu saí daqui e falei: ‘Mãe, estou indo para ficar entre as dez. Se conseguir, o meu sonho já estará realizado, e no ano que vem eu volto e vou para destruir’.'' Só que ela, ao lado da outra brasileira, a mineira Simone Sousa, que participou do concurso, ficou entre as seis finalistas. Todas faziam poses, contraindo ao máximo seus músculos da cabeça aos pés. ''O que se vê ali é uma pessoa sorrindo, mas no fundo está segurando, fazendo uma força danada'', relata a atleta. E os juízes anunciaram as eliminadas. ''Então começa: sexto lugar (faz pose), quinto lugar (faz pose), quarto lugar... Nossa! Quando vi que estava entre as três, minhas pernas faziam assim (treme as mãos)... Terceiro lugar, não era eu! Quando vi que poderia ser vice-campeã, porque estava concorrendo com a favorita, a inglesa, não acreditei. E daí?!... Segundo lugar não era eu (ri)! Ai, me arrepia!''

Na Academia Espaço do Corpo, em Curitiba, Paraná, onde dá aula como personal trainer, Larissa Cunha, do alto de seu 1,67 metro e 85 quilos, conta a sua conquista do título de Miss Universo como uma debutante deslumbrada com o seu vestido. ''Gente, eu choro toda vez que vejo o vídeo'', confessa.

Cintura fina, ombros largos e as pernas na direção do ombro formando um X

Enquanto ela levantava a bandeira brasileira na Inglaterra e só pensava em ligar para sua mãe que ficou no Brasil, o júri se orgulhava ao premiar a representante da feminilidade no fisioculturismo. ''Eles avaliam o tamanho da musculatura e a definição total. A simetria também conta bastante agora. Eles querem a cintura fina, ombros largos e as pernas na direção do ombro formando um X. Isso eu tenho bastante'', diz a campeã com um sorriso no rosto. ''Está mudando o conceito de que o fisioculturismo é másculo. As mulheres muito grandes estão sendo desclassificadas, os juízes estão contando mais a feminilidade, a beleza e até a pele, porque alguns atletas se entopem de esteroides e vêm com a pele toda empipocada, isso está descontando ponto'', completa.

Larissa fala e se mexe ao mesmo tempo, sem tirar os olhos de seu interlocutor e o sorriso do rosto. Seus braços se contorcem, sua mão desmunheca e ela assume que adora fazer poses. Vaidosa, sim. ''Uso luva no treino para não ter calo na mão. E tenho unha comprida, que não pode quebrar. Posso quebrar o dedo, mas, se quebrar a unha, eu vou para o hospital'', e ri exagerada mostrando suas unhas pintadas de roxo. ''Gosto de andar cheirosa, de maquiagem, de esmalte principalmente e adoro vestidinhos, sandalhinhas.'' E os homens, gostam? ''Namorei um rapaz por cinco anos que também era atleta e, nessa época, ele me ajudou bastante. Daí não deu certo, ele parou, eu continuei e estou aqui. Namorei outro cara e também não deu certo...'', diz e para pensativa. ''Eles competem comigo, esse é o problema.''

Nesse momento, o olhar longe denuncia que, por trás de toda aquela musculatura, há uma romântica. Larissa não idealiza nada diferente da maioria das mulheres. ''Quero uma pessoa que me respeite muito como atleta e me valorize como mulher, porque não tenho intenção nenhuma de parar de competir'', reconhece. Por enquanto, as cantadas que recebe não surtem efeito prático, só risos. ''O cara chega e diz: 'Oi, tudo bem? Você faz musculação?’ E eu: ‘Não, faço balé clássico, não está vendo?!''', e cai na gargalhada.

Até hoje, Larissa mora com a mãe, dona Edite. Professora de história e geografia, ela criou três filhos praticamente sozinha. Há uns 20 anos, quando frequentava uma academia, a filha, adolescente, ia junto e ficava na recepção olhando as revistas. ''Um dia, peguei uma revista que tinha uma mulher musculosa, era um ícone do fisioculturismo, e eu nem sabia que aquilo era esporte. Eu olhei e falei: 'Gente, que lindo! Quero ser assim!'''

A imagem daquela mulher musculosa cresceu com Larissa Cunha. Dona Edite não levou muito a sério, tanto que, quando matriculou sua filha, aos 17 anos, na academia de ginástica, ironizou com o instrutor dizendo: ''Ela quer ficar grande''. Para quem vivia insistindo para a menina fazer balé, só poderia mesmo estar brincando.

Entre pesos e exercícios para bíceps, tríceps e outros grupos musculares, Larissa descobriu os suplementos alimentares. Sem saber direito para que serviam, dona Edite comprou potes de proteínas, vitaminas e sais minerais que a filha ia tomando indiscriminadamente. ''Está ficando uma gordinha'', reparavam, mas a adolescente não estava nem aí para o que diziam dela, queria porque queria bombar. E aquele corpo magrinho de 53 quilos foi aumentando, aumentando...

''Passei por tanta coisa de preconceito pelo fato de eu ser um pouco diferente''
Aos 18, Larissa entrou na faculdade de educação física e lá contou seu plano secreto para um professor. Primeiro, ele achou melhor deixar dona Edite a par do que estava acontecendo com a filha. Em seguida, indicou uma personal trainer especialista em treinamento feminino. Também acompanhada de uma nutricionista, ela entrou de cabeça no fisioculturismo e com o apoio da mãe e dos dois irmãos mais novos foi vendo seu corpo crescer ordenadamente. E ouvindo o que não queria. ''Passei por tanta coisa de preconceito pelo fato de eu ser um pouco diferente na sociedade. Já levei xingão na rua, falaram palavras que nem preciso repetir, mas é aquela coisa, amo o que faço e sou assim porque quero'', declara.

Para ser do jeito que é, Larissa se esforça. E muito. Pós-graduada em fisiologia do exercício e treinamento esportivo, atualmente cursa nutrição. Seu dia começa às 5h20, quando se levanta e caminha na ciclovia perto de casa. Em seguida, vai para a academia e intercala o dia com treino e uma maratona de aulas de personal trainer. ''Aí tomo banho, pego minha mochila e vou para a faculdade à noite, de onde saio entre 10h30 e 11h.'' Acaba dormindo pouco, mas tenta compensar o sono nos fins de semana quando fica longe das baladas.

No treino, chega a trabalhar com 120 quilos nos exercícios de supino e com 450 quilos no leg press. Cada dia é dedicado a um grupo muscular, e não passa de 50 minutos diários de esforço físico intenso. ''Mais que isso libera um hormônio, o cortizol, que degrada o músculo, então não é interessante ficar duas ou três horas na academia. É um treino intenso, com muito peso, muito estímulo muscular mesmo, e acabou'', justifica.

Com os 20 alunos, a maioria mulheres, essa intensidade diminui. Ela respeita a identidade biológica e o objetivo de cada um e tem plena noção de que nenhum deles quer ser como a professora. ''Desde o início vi que era uma pessoa que sabia o que estava fazendo, os conselhos que ela dá para a gente são muito sérios. Os alunos dela se transformam, como foi o meu caso. Hoje eu sou outra pessoa'', conta Igor Pessoa de Mello, que treina com Larissa há 12 anos e não aparenta seus mais de 50 anos de idade.

A dieta de Larissa chega a 4 mil calorias por dia
Quando não está treinando para uma competição, a dieta de Larissa chega a quatro mil calorias por dia, com ingestões de duas em duas horas. No cardápio, carnes, massas sem molho, cereais, verduras e a permanência dos suplementos, que correspondem a 60% da alimentação diária da atleta. Mas, se alguma prova se aproxima, a quantidade de comida é reduzida drasticamente até baixar seu peso de 85 para 66 quilos e a taxa de gordura de 16% para 3%. Pele e músculo. E fome. ''Eu não tenho TPM. O meu percentual de gordura é baixo, então eu não menstruo. Tenho ovulação normal, faço acompanhamento clínico de três em três meses, tudo direitinho. Mas eu tenho uma coisa pior do que a TPM: fome na dieta.'' E sai de baixo!...

Brava? Não. Violenta? Jamais. Larissa Cunha ficou conhecida como a mulher mais forte do mundo depois de ganhar o Miss Universo, mas nem ela mesma tem a dimensão de sua força, já que nunca bateu em ninguém. A mais musculosa, sim, e reconhece esse título com o peito estufado, resultado de uma vida inteira de dedicação. ''O pessoal fala assim para mim: ‘Você treina um ano para o campeonato!' E eu digo: 'Não, para esse nível de campeonato eu treino há 16 anos''.