Desde pequena, Alice Kingsley tem pesadelos. Seu pai, que nada tem a ver com um típico inglês do século 19, sempre a consola quando a imagem da queda em um longo buraco e uma lagarta azul visitam seu sono. Ela teme ser meio ''maluquinha'', no que ele concorda: as melhores pessoas o são!

Mas Alice (Mia Wasikowska) cresce, e aos 19 anos tem que se adaptar à sociedade londrina. ''Sou contra meias'', diz à mãe quando esta pede que tenha uma postura de moça – com espartilhos e sorrisos. Quando o pretendente lhe cobra mais realismo, ela relembra a figura paterna, já falecida: ''Meu pai dizia que às vezes pensava em seis coisas impossíveis antes do café da manhã''.

É assim que o diretor Tim Burton (de Edward Mãos de Tesoura e A Fantástica Fábrica de Chocolate) nos apresenta uma nova concepção de Alice no País das Maravilhas: com uma protagonista jovem, rebeldemente doce e em busca de algo que ela não sabe bem o que é.

Ao seguir um coelho e cair em um profundo buraco (e protagonizando o que deve se tornar uma das cenas mais marcantes do cinema), ela chega a um mundo subterrâneo. Os habitantes, nossos velhos conhecidos da história anterior, ficam em dúvida: seria essa a Alice certa? A menina que um dia esteve lá?

Daí em diante, o filme segue em um ritmo acelerado, bem diferente do retrato da Londres vitoriana dos primeiros minutos. Cavalgando em cachorros, monstros e de carona na cabeça do Chapeleiro Maluco (que sentencia: ''Qualquer um pode ir de cavalo ou de trem, mas o melhor é ir de chapéu''), ela se torna uma espécie de heroína.

Johnny Depp, em mais uma parceria com Burton, é um chapeleiro cuja maior maluquice é a extrema racionalidade, a ponto de fingir-se de louco quando lhe é conveniente. Chega a ser depressivo, em sua espera contínua pelo Dia Fabuloso.

Brilhante está Helena Bonham-Carter, no papel da cabeçuda Rainha Vermelha. Suas expressões, sua maldade quase infantil e a disputa com a irmã, a chata e doce Rainha Branca (Anne Hathaway), fazem com que ela, por vezes, roube a cena.

Mais do que imaginar como seria a volta da menina ao País das Maravilhas, Tim Burton dá a ela um significado para sua vida, com um final racional e surpreendente, em um paradoxo: nem sempre a busca das mocinhas, mesmo as revolucionárias-apaixonadas, é por um amor verdadeiro. Em Alice no País das Maravilhas, coração, só enfeitando o castelo da malvada Rainha Vermelha, que acredita: ''É melhor ser temida do que amada''.