Longe das cenas de Viver a Vida, onde interpreta a conturbada personagem Renata, Bárbara Paz, 35 anos, agora faz jus a seu sobrenome. Em sua primeira novela na TV Globo, no papel da aspirante à atriz que sofre de anorexia alcoólica, ela vive o melhor momento de sua carreira, depois de passar por muitas dificuldades na vida pessoal. ''Sou mais uma sobrevivente, como tantas outras'', diz mansamente a atriz.
Até encontrar a felicidade ao lado do cineasta Hector Babenco, 63, seu namorado há dois anos, Bárbara passou por caminhos tortuosos, que, por diversas vezes, mudou o rumo de sua trajetória profissional.
Caçula de uma família de quatro mulheres, aos 6 anos ela perdeu o pai, Oripe Paz, vítima de cirrose decorrente do alcoolismo. Sua mãe, Iray - que durante o parto da atriz sofreu complicações renais e passou o resto da vida fazendo hemodiálise -, faleceu quando ela tinha apenas 17 anos.
Depois de perder a mãe, Bárbara tentou recomeçar a vida e, aos 18 anos, mudou para São Paulo, apostando todas as fichas na carreira de modelo. Bastou conseguir os primeiros trabalhos e ela sofreu um grave acidente de carro quando viajava para passar o fim de ano com os irmãos na cidade de Campo Bom, no Rio Grande do Sul, sua terra natal.
Na noite de Natal, o carro em que viajava de carona com duas amigas - que haviam bebido - bateu em um prédio. Bárbara atravessou o vidro do veículo. Durante o socorro, os médicos notaram que seu maxilar estava solto e os músculos faciais completamente destruídos. Até hoje ela carrega duas marcas, uma em cada lado da face, que interromperam sua breve e promissora carreira de modelo.
Mas, assim como o tempo atenuou as marcas que a vida lhe impôs, as cicatrizes do acidente de carro também estão desaparecendo, graças a tratamentos estéticos. ''Já diminuiram cerca de 70%. Muitos me perguntam se fiz cirurgia plástica, mas não fiz. Hoje a dermatologia resolve muito, aliás, quase tudo'', conta.
Sem se abater com as marcas no rosto - e na vida -, Bárbara começou a estudar teatro e a conviver com a profissão que mostraria, finalmente, onde ela iria encontrar a paz. ''Poderia ter me perdido ao longo dos tombos e das perdas. Mas nada me fez desviar do meu caminho, dos meus sonhos. Tudo o que eu almejava se tornou maior perto dos acidentes que a vida me colocou.''
Um trem em movimento
Inspirada na frase do cineasta e ator norte-americano Orson Welles - ''ser ator é como ter nascido em um trem que ficará rodando por décadas sem parar e você precisa ter tudo dentro de apenas uma mala'' - que, coincidentemente, também ficou órfão em idade precoce, aos 15 anos, Bárbara afirma que transfere toda a bagagem de sua vida para telas e palcos onde se apresenta. ''A carreira de atriz é a longo prazo. É preciso estudo constante. É claro que tem o fator sorte, mas é vocação e sorte'', afirma.
A sorte foi ter vencido em 2001, o primeiro reality show da TV, a Casa dos Artistas, no SBT. O talento ficou por conta de, logo em seguida, interpretar a personagem principal na novela Marisol, exibida pela emissora, que a lançaria definitivamente no mundo das telenovelas.
Além do talento e da sorte, Bárbara ainda coloca a fé como um dos pilares que a fizeram passar por tantas dificuldades na vida. ''Sou religiosa. Acredito que Deus mora dentro de todos nós'', diz a atriz, que já planeja estrear a peça Hell Paris, uma adaptação do best seller francês de Lolita Pille, no teatro em 2010.
A barreira do alcoolismo
Sempre presente em tristes momentos de sua vida - como na morte do pai e no acidente com as amigas -, o alcoolismo hoje é parte do sucesso profissional da atriz. Em quase todas as cenas de Viver a Vida, Bárbara interpreta a personagem Renata bebendo ou já bêbada. No entanto, ela diz que isso não a incomoda e conta, inclusive, que já tomou alguns porres na adolescência. ''Mas nunca dei vexame. Sempre fui muito controlada. Sabia meu limite.''
Sofrimento agora só na TV mesmo. A mudança na vida da atriz é visível. Sempre muito agitada, 'ligada na tomada mesmo', ela agora anda devagar e fala pausadamente. O passado dramático hoje está presente apenas nos diários, que mantém como terapia desde os tempos de criança, e nas telas de seus quadros. ''É uma psicanálise. As pinturas sempre foram reflexos do meu mundo, da fase que estou vivendo.''
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